Escrita há dez anos como um desabafo após a Chacina do Cabula, em Salvador, canção do artista e pesquisador Elinas agora ganha videoclipe
Escrito por: Maria Trombini
Retirado de: Jornal da USP
Nascida durante o trajeto de ônibus que liga Itapuã a Nazaré, em Salvador, a música Luiz Gama (Pra Que a Gente Reaja) acaba de ganhar um videoclipe. O samba-manifesto de Elinaldo Pereira, ou Elinas, foi lançado há dez anos e reflete sobre a violência histórica e sistêmica sofrida pela juventude negra sob as forças institucionais no Brasil.
A produção audiovisual foi publicada no dia 21 de junho e pode ser conferida no YouTube. Segundo o compositor, a motivação para gravar o videoclipe, mesmo que uma década depois da criação da música, está relacionada a seu amadurecimento como artista e ao trabalho de pesquisa que realiza atualmente. Elinas é aluno no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e estuda musicalidades afro-diaspóricas em montagens de teatro negro.
“Eu estou fazendo uma transição de carreira dentro da minha própria carreira. Para além de ser uma pessoa que trabalha com composição e mixagem para trilhas de audiovisual, eu amadureci o suficiente para querer lançar minhas músicas, para ver valor nisso, para querer dialogar. Essa produção é sobre um personagem que foi fruto de uma pesquisa para uma trilha musical, mas é também sobre uma história pela qual me apaixonei, que é a do Luiz Gama. É uma história tanto na minha terra, que é Salvador, quanto aqui na cidade de São Paulo”, conta o artista.
Em 2015, Elinas voltava de um dos ensaios do espetáculo de bonecos Luiz Gama e a Liberdade, para o qual compunha a trilha musical, quando a página de um dos livros sobre a vida do advogado lhe chamou a atenção. Uma nota de jornal anunciava a morte de Gama em 21 de junho de 1882 e informava sobre o enterro a ser realizado no Cemitério da Consolação. Mais abaixo, na mesma página, havia uma sequência de notas sobre venda e procura por pessoas escravizadas fugidas.
“Isso me impactou muito. Fiquei pensando em como ele escolheu lutar pela liberdade da população negra, e era reconhecido por isso: o enterro dele reuniu milhares de pessoas. Mas, na mesma página, as notas sobre comprar, vender ou alugar pessoas negras. É um retrato do que era esse Brasil escravocrata. Isso me fez refletir: o que mudou de lá para cá? Como o negro é apresentado na sociedade, quais os aspectos abolicionistas daquela época ainda estamos discutindo?”, questiona Elinas.
A reação da juventude
Elinas cita a influência direta de outro evento para a escrita da canção: a Chacina do Cabula. Em 6 de fevereiro de 2015, uma operação da Polícia Militar resultou na morte de 12 jovens negros no bairro do Cabula, em Salvador.
Para ele, os versos articulam denúncia, memória e inquietação: “A música é um desabafo. Um desabafo de memórias que eu vivi ou presenciei. Eu, como uma pessoa negra vinda de uma região periférica de Salvador, que já sofreu violência policial, que teve parentes presos, que perdeu pessoas pela violência policial ou pelo tráfico. Então, é um conversa que triangula: ao mesmo tempo em que eu desabafo com o Luiz Gama, eu chamo o ouvinte para que a gente reaja”.
Herói preto, preto abolicionista,
Denguinho de Luíza Mahin, Rainha da Bahia
Rogai por nós, advogai por nós, para que a gente reaja
O termo “reaja” é também uma referência aos movimentos da juventude negra soteropolitana contra a violência, como o “Reaja, ou Será Morto”. O compositor, que integra coletivos de militância negra, menciona a música, assim como outras formas de arte, como um importante meio de denúncia do racismo institucional ou outras violências de Estado.
Da Bahia a São Paulo
A mudança para São Paulo permitiu a Elinas perceber ecos entre sua própria história e as trajetórias que vinha estudando. Assim como Luiz Gama, que também deixou a capital baiana em direção à paulista, ele passou a revisitar sua própria travessia com outros olhos. “Esse paralelo Salvador-São Paulo passou a ter muito mais sentido depois que eu vim para cá”, diz. “São trajetórias que se repetem em ondas, em ecos.”
O deslocamento de pessoas e ideias entre as cidades também está relacionado à análise de Elinas sobre a escuta e composição da música negra no Brasil. Ele aponta que há diferenças significativas entre as sonoridades de Salvador e São Paulo, que revelam visões distintas de mundo.
“Na Bahia, reconhece-se que a origem da nossa música negra é religiosa: pelos toques dos candomblés, nos quilombos, ou dos afoxés, que são oriundos de candomblé. Há uma visão muito cíclica, de olhar para trás para poder ir totalmente para a frente, de ver a ancestralidade como a grande tecnologia”, explica o pesquisador.
“Já em São Paulo, é muito mais forte um olhar reto para a frente. É uma música negra que é muito ligada ao funk dos Estados Unidos, o funk music, o swingado, o hip-hop, que são leituras de mundo do negro de uma forma musical muito voltadas para o diálogo com o futuro, muito mais afrofuturistas, para usar esse termo”, completa.
A canção de hoje
Questionado sobre o que o inspiraria hoje, se estivesse escrevendo uma nova canção, Elinas não hesita: “a luta por território”. A disputa por terra, tanto nos quilombos quanto nas cidades, é, para ele, o conflito central do presente. “Isso é muito visível na disputa pela demarcação de terras quilombolas e na constante guerra presente nas grandes cidades. Tudo isso tem a ver com terra, com território, com lugar”, afirma.
Ele cita o assassinato de Mãe Bernadete, liderança quilombola do Quilombo Pitanga dos Palmares, como exemplo das ameaças que pairam sobre os corpos e as vozes negras. “É uma guerra silenciosa que envolve o tráfico, o Estado, a especulação, e que tem resultado em mortes. Tudo isso está relacionado à forma como a ocupação do território continua sendo uma forma de controle. Talvez seja algo sobre o qual eu poderia compor, um dia”, reflete o artista.