Encontro na EACH relembrou a trajetória de Bruna Oliveira da Silva e debateu políticas públicas e cultura de enfrentamento à violência contra as mulheres
Escrito por: Michel Sitnik
Retirado de: Jornal da USP
O conteúdo apresentado abaixo foi retraduzido para facilitar a leitura e o entendimento.
A USP realizou, no dia 9 de setembro, uma homenagem emocionada à estudante Bruna Oliveira da Silva, vítima de feminicídio em abril deste ano. A Universidade entregou simbolicamente a ela um diploma póstumo de mestrado, reconhecendo sua trajetória acadêmica interrompida de forma brutal. A cerimônia aconteceu na EACH, no campus da zona leste, durante o 1º Seminário sobre Feminicídio e Violência Contra as Mulheres.
Bruna tinha se formado na própria unidade e, em 2024, voltou à USP ao ser aprovada no mestrado. Moradora da região, ela foi assassinada perto de casa, após sair do metrô e caminhar em direção à sua rua. O evento foi organizado pelas Pró-Reitorias de Pós-Graduação e de Inclusão e Pertencimento, em parceria com a direção da EACH.
O diretor da unidade, Ricardo Ricci Uvinha, explicou que o encontro tinha como objetivo lembrar que o feminicídio e a violência contra as mulheres são problemas que vão muito além dos números. São tragédias que se repetem todos os dias e mostram o quanto ainda existe desigualdade de gênero na sociedade. Para ele, o seminário não foi apenas um momento acadêmico, mas um compromisso coletivo. A USP, disse ele, deve produzir conhecimento de qualidade e também transformá-lo em ações concretas. Emocionado, ele lembrou sua convivência com Bruna: “Ela se destacava pela competência, sensibilidade e pelo desejo de transformação”. Para Uvinha, a homenagem é um ato de memória e responsabilidade, e a pesquisa que Bruna deixou para trás seguirá adiante.
A vice-reitora da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda, reforçou a importância de transformar conhecimento em políticas públicas que ajudem a enfrentar a violência de gênero. Ela lembrou que o feminicídio é uma chaga social ligada a raízes históricas como o patriarcalismo e a herança da escravidão. “São milhares de mulheres mortas todos os anos. Não basta registrar, é preciso entender a fundo essa realidade para produzir políticas eficazes”, afirmou. Para ela, o diploma concedido a Bruna é também um ato de resistência e um chamado para que novas tragédias não aconteçam.
Após a leitura de depoimentos de antigos professores, o diploma foi entregue aos pais de Bruna, Simone da Silva e Florisvaldo Araújo de Oliveira, pelas mãos da vice-reitora e da ministra das Mulheres, Márcia Lopes.
Muito emocionada, Simone falou sobre o orgulho que sente da filha. Lembrou que Bruna comemorou muito quando passou no mestrado e dizia que daria novamente orgulho à família. “Ela foi tirada de mim, da nossa família e da instituição. E foi morta justamente pelo que defendia: a segurança, as mulheres, a luta contra a desigualdade”, disse. A mãe agradeceu à USP e afirmou que o legado da filha continuará: “Ela sempre acreditou que podia, e está aqui o resultado: essa homenagem”.
Simone deixou ainda um recado aos presentes: “Digam aos seus filhos que os amam todos os dias”. Entre lágrimas, agradeceu pela homenagem e reforçou o orgulho pela trajetória de Bruna.
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, destacou que universidades como a USP têm papel importante na construção de políticas de enfrentamento à violência de gênero. Ela lembrou que a ciência deve caminhar junto com a transformação social e defendeu a inclusão de conteúdos sobre gênero na formação de profissionais de áreas como saúde, educação e assistência social. Para a ministra, o Brasil precisa pensar em políticas públicas de grande alcance: “Aqui tudo são milhões. Para transformar a realidade, é preciso pensar grande”.
O seminário
O 1º Seminário sobre Feminicídio e Violência Contra as Mulheres reuniu pesquisadoras e pesquisadores da USP que estudam temas ligados à violência de gênero. A programação contou com painéis sobre saúde, políticas públicas, feminicídio na justiça, violência sexual e a invisibilidade de mulheres indígenas, além de debates sobre cultura de abusos, desafios na universidade e caminhos para o enfrentamento da violência.