Em que momento a masculinidade passa a ser “tóxica”?

Heloísa Almeida explica que o conceito de masculinidade é algo complexo e diverso e que mudanças sociais não devem ser consideradas ameaças ao gênero masculino

Escrito por: Gabriel Albuquerque sob a supervisão de Paulo Capuzzo

Retirado de: Jornal da USP

O conteúdo apresentado abaixo foi retraduzido para facilitar a leitura e o entendimento.

Uma pesquisa publicada na revista Nature analisou comportamentos associados ao que costuma ser chamado de “masculinidade tóxica”, como o sexismo, a violência e o preconceito contra pessoas com outras orientações sexuais. No entanto, a antropóloga Heloísa Almeida, professora da USP, explica que esse termo é visto com cautela por pesquisadores da área de gênero. Para ela, não existe apenas uma forma de ser homem. As masculinidades são construídas socialmente e mudam de acordo com a época, a cultura, a classe social, a raça e as experiências de cada pessoa.

Segundo a pesquisadora, o problema não está na masculinidade em si, mas em determinados modelos de comportamento que ensinam aos homens que eles precisam ser sempre fortes, dominantes e incapazes de demonstrar sentimentos. Desde a infância, muitos meninos escutam frases como “homem não chora” ou são incentivados a responder conflitos com agressividade. Essas mensagens acabam ensinando que expressar tristeza ou vulnerabilidade é sinal de fraqueza, enquanto a raiva e a violência seriam formas aceitáveis de reagir.

Heloísa destaca que alguns homens podem sentir ameaçadas as posições de poder que historicamente ocuparam quando as mulheres conquistam mais direitos, autonomia financeira e espaço na sociedade. Em alguns casos, esse sentimento de ameaça pode se transformar em comportamentos violentos. Pesquisas sobre violência doméstica mostram, por exemplo, que situações em que a mulher passa a ganhar mais dinheiro ou a ter mais independência podem gerar conflitos em relacionamentos marcados por visões tradicionais sobre os papéis de homens e mulheres.

Para a professora, essas mudanças não deveriam ser vistas como uma perda para os homens, mas como um avanço para toda a sociedade. O objetivo não é retirar direitos de ninguém, mas garantir mais igualdade e respeito nas relações. Por isso, ela defende que as discussões sobre gênero façam parte da educação desde cedo, ajudando crianças e adolescentes a desenvolverem formas mais saudáveis de lidar com emoções, diferenças e conflitos.

Na sua avaliação, muitos dos casos de violência contra mulheres, pessoas LGBT+, crianças e idosos estão ligados a uma visão de masculinidade que associa poder à força, ao controle e à agressividade. Construir relações mais igualitárias passa também por repensar esses modelos e mostrar que ser homem não precisa significar esconder sentimentos ou resolver problemas por meio da violência.

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