Graduada em dois outros cursos pela Universidade, formanda da Educação Física conta sobre seu passado e suas perspectivas para o futuro
Escrito por: Isabela Nahas
Retirado de: Jornal da USP
O conteúdo apresentado abaixo foi retraduzido para facilitar a leitura e o entendimento.
No dia da entrevista ao Jornal da USP, Rebeca Rodrigues vestia um vestido azul escuro, presente de sua mãe. Ela trabalha em uma sala pequena e simples no Instituto de Relações Internacionais da USP. Entre poucos objetos, uma pequena bandeira LGBTQ+ ao lado do porta-canetas chama a atenção e contrasta com os móveis claros. Rebeca atua no setor de Cultura e Extensão do instituto, é turismóloga, bibliotecária e está prestes a se tornar a primeira mulher transexual a se formar em Licenciatura em Educação Física na USP.
Desde o início do curso, Rebeca passou a refletir sobre uma Educação Física diferente da tradicional. Para ela, a área precisa falar sobre diversidade, questões raciais e de gênero. Sua principal pergunta sempre foi como dar aulas mais inclusivas e sensíveis às diferenças.
Esse olhar aparece em seu Trabalho de Conclusão de Curso, intitulado Perspectivas de professoras trans na educação física escolar. No trabalho, Rebeca analisou os poucos estudos acadêmicos existentes sobre o tema. Após a apresentação, uma amiga comentou que o título do TCC era importante justamente por não focar apenas em sofrimento, desafios ou resistência, mas em possibilidades de futuro.
A escolha pela Educação Física veio de uma paixão antiga pela dança. Aos 17 anos, Rebeca fazia aulas de balé e jazz escondida da família. Parou por causa de conflitos e só voltou a dançar aos 30 anos, quando realizou uma apresentação muito esperada. Já aos 40, durante a graduação, retomou o balé adulto, mas decidiu interromper novamente após ser colocada pelo professor no grupo dos meninos, situação que a deixou desconfortável.
Após a formatura, Rebeca deseja trabalhar como professora na rede pública e considera fazer mestrado. Ao mesmo tempo, tem receio do preconceito que enfrenta há anos. Ela conta que se sente mais à vontade trabalhando com crianças pequenas, que costumam ter menos julgamentos e mais curiosidade do que alunos mais velhos.
A história de Rebeca começa ainda na adolescência. Em festas e viagens, ela se vestia como mulher e usava o nome Bionda. Por não se sentir preparada para enfrentar a sociedade, decidiu esconder essa parte de si por muitos anos. Quando concluiu os cursos de Turismo, Biblioteconomia e iniciou a graduação em Educação Física, Rebeca ainda não vivia publicamente sua identidade de gênero.
A decisão de iniciar a transição veio em fevereiro de 2021, após assistir à série Veneno, que retrata a vida da atriz Cristina Ortiz. A obra despertou nela reflexões sobre hormonização e sobre o sentido da própria vida. A terapia hormonal, que envolve o uso de hormônios para alinhar o corpo à identidade de gênero, marcou o início desse processo.
A transição aconteceu durante a pandemia, período em que Rebeca aproveitou para adiantar disciplinas de forma on-line, já que precisava conciliar estudo e trabalho. Nesse tempo, familiares e amigos estranharam as mudanças. O amigo com quem morava disse não estar preparado para vê-la diferente, e a aceitação da mãe ainda está em construção.
Com a volta das aulas presenciais, novos desafios surgiram. Rebeca relata conflitos com alguns professores, inclusive questionamentos inadequados sobre o uso do banheiro feminino. Ela também percebeu menos tolerância com atrasos e faltas em comparação a outros alunos. Apesar disso, encontrou apoio em algumas professoras que se dispuseram a ouvi-la e dialogar. Uma delas foi Soraia Chung Saura, que orientou seu TCC.
Rebeca foi escolhida como oradora da colação de grau de sua turma. Ela conta que vive esse momento com emoção, por ser sua primeira formatura assumida como mulher trans e também por acontecer após a morte de seu pai. Para ampliar o acesso de pessoas trans ao ensino superior, ela defende a aprovação urgente de cotas específicas.
Rebeca participa da Comissão de Ações Afirmativas da Pós-Graduação em Ecologia da USP, que já conta com vagas destinadas a pessoas trans e travestis. Ela lembra que muitas dessas pessoas enfrentam dificuldades desde a infância, com bullying e exclusão escolar, o que impede até a conclusão do ensino básico.
Apesar de tudo, Rebeca concluiu a escola e duas graduações, caminhando para a terceira. Ela acredita que a visibilidade de pessoas trans tem aumentado, com o apoio de ONGs e famílias mais informadas, mas reconhece que ainda há muito a avançar. Para ela, esse é apenas o começo de um caminho maior de conquistas e transformações.