Primeira obra de Júlia Lopes de Almeida aborda a sociedade brasileira no final do século 19, especialmente a situação da mulher e sua busca por educação e trabalho
Escrito por: Claudia Costa
Retirado de: Jornal da USP
O conteúdo apresentado abaixo foi retraduzido para facilitar a leitura e o entendimento. Tendo como indicação de escrita e cooautoria o Prof. Dr. Demetrius Rodrigues
Publicado inicialmente em formato de folhetim em 1888 e lançado como livro apenas em 1899, Memórias de Martha é o primeiro romance de Júlia Lopes de Almeida. A obra é leitura obrigatória para o Vestibular da Fuvest de 2026, que traz, pela primeira vez, uma lista composta somente por autoras mulheres.
O romance é narrado em primeira pessoa por uma mulher e se passa em um cortiço do Rio de Janeiro. Ao longo da história, são abordados temas como desigualdade social, preconceito, mudanças urbanas e sociais e, principalmente, a condição da mulher em uma sociedade marcada por limitações e desigualdades. A educação e o trabalho aparecem como caminhos possíveis para a emancipação feminina.
Júlia Lopes de Almeida teve uma carreira literária extensa e premiada, com romances, contos, crônicas, textos infantis, ensaios e peças de teatro. Ela participou das reuniões que deram origem à Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897, mas não foi aceita como membro por ser mulher. Em Memórias de Martha, assim como em outras obras, a autora demonstra sua preocupação em dar protagonismo às mulheres e destacar seu papel na sociedade.
Para a pesquisadora Laila Thaís Correa e Silva, pós-doutora em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, a escolha da obra pela Fuvest ajuda a corrigir apagamentos históricos. Segundo ela, a nova lista do vestibular amplia o olhar sobre a literatura brasileira e promove revisões importantes do cânone.
Na narrativa, o leitor acompanha as memórias de Martha já adulta, que relembra sua infância, juventude e a relação com a mãe. A história se passa em meio à pobreza e às dificuldades da vida em um cortiço no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, durante o fim do Império e o início da República. Trata-se de uma autobiografia ficcional, em que Martha, órfã de pai, vive com a mãe em condições precárias e encontra na educação a única chance de mudar de vida.
Mesmo com a mãe acreditando que a filha deveria aprender tarefas domésticas para sobreviver, Martha sonha em se tornar professora. Ao longo do romance, acompanhamos a trajetória dessas duas mulheres. Após a morte do marido, a mãe perde a estabilidade financeira, deixa a classe média e passa a trabalhar como lavadeira. Sem recursos, as duas se mudam para um cortiço, onde enfrentam doenças, dificuldades e privações.
Segundo Laila, o livro pode ser entendido como um romance de formação, pois acompanha o crescimento de Martha desde a infância até a vida adulta. Ao longo desse percurso, a personagem conquista uma profissão, se casa e, por fim, enfrenta a morte da mãe. É por meio da educação que Martha consegue se formar professora, alcançar independência financeira e tirar a si e à mãe do cortiço.
Apesar dessa conquista, a personagem acaba se casando por imposição da mãe, sem amor ou desejo, apenas por convenção social. Pouco tempo depois do casamento, a mãe falece, e Martha passa a viver um profundo vazio. É nesse momento de dor e perda que ela encerra suas memórias, marcadas por dificuldades, lutas e tentativas de sobrevivência.
Do ponto de vista literário, Memórias de Martha se insere no Realismo. A obra retrata os costumes da sociedade carioca da época e dá espaço a personagens marginalizados, como mulheres pobres, famílias de imigrantes e pessoas negras libertas da escravidão, muitas vezes vistas como descartáveis pela sociedade. Para Laila, o romance promove uma forte crítica social e política.
Ao mesmo tempo, a pesquisadora observa que mãe e filha não se deixam moldar completamente pelo ambiente degradado em que vivem, o que afasta a obra de um determinismo típico do Naturalismo. Martha não se entrega ao sentimentalismo ou a ilusões românticas. Sua postura é marcada pela lucidez, pela dureza da realidade e pela busca prática por sobrevivência e autonomia.
Laila também destaca a linguagem direta e envolvente utilizada por Júlia Lopes de Almeida. A escrita aproxima o leitor do universo de Martha e dos moradores do cortiço, permitindo acompanhar de perto seu crescimento, amadurecimento e forma de enxergar o mundo. Assim, Memórias de Martha se apresenta como uma obra sensível, crítica e atual, que ainda dialoga com questões sociais e de gênero vividas no Brasil.