Estudo analisa a experiência de mulheres na arte marcial e revela como a prática se transforma em empoderamento e pertencimento, mesmo em ambientes majoritariamente masculinos
Retirado de: Jornal da USP
O jiu-jítsu, que significa “arte suave”, é hoje a arte marcial mais praticada no Brasil. Mesmo assim, ainda é um esporte dominado por homens. Dados do Ministério do Esporte mostram que, para cada mulher praticante, existem cerca de cinco homens nos tatames. Apesar disso, cada vez mais mulheres seguem firmes na modalidade, enfrentando desafios que vão muito além da luta física.
Para entender melhor essa realidade, a pesquisadora Luciana Neder Giancristoforo, orientada pela professora Soraia Chung Saura, realizou uma pesquisa de mestrado na USP. O estudo ouviu seis mulheres que praticam jiu-jítsu há mais de dez anos sem interrupção, além do relato da própria pesquisadora. A ideia foi compreender como essas mulheres vivem o esporte, como percebem seus corpos, seus treinos e suas relações dentro de um ambiente historicamente masculino.
Os relatos mostram que o jiu-jítsu traz dores, marcas no corpo e obstáculos sociais, mas também oferece algo muito forte: sensação de pertencimento, identidade e transformação pessoal. Para muitas delas, o esporte vai muito além da técnica — é um espaço de aprendizado, memória, afeto e resistência.
O corpo que aprende a lutar — e a viver
As entrevistas, com cerca de uma hora e meia cada, permitiram que as praticantes contassem suas histórias com calma e profundidade. Todas tiveram suas identidades preservadas. A pesquisa mostrou que, com o tempo, as mulheres passam a enxergar o próprio corpo de outra forma, ganhando consciência, confiança e respeito por seus limites.
Para muitas, o jiu-jítsu é um aprendizado constante. Uma das praticantes contou que o que mais a encanta no esporte é o fato de que ninguém é superior a ninguém: todos estão sempre aprendendo. Outras relataram como o treino mudou sua rotina, sua postura no dia a dia e até a forma como se veem no mundo.
O aprendizado também vai além da luta. Algumas entrevistadas lembraram que, desde cedo, aprenderam que cuidar do tatame — limpá-lo, respeitá-lo — também faz parte da prática. Isso mostra que o jiu-jítsu ensina disciplina, responsabilidade e convivência, valores levados para fora da academia.
Muitas mulheres relataram que o esporte as ajudou a se posicionar melhor, a dizer “não” quando necessário e a lidar com situações de assédio ou conflito. Aprenderam a olhar nos olhos, a enfrentar o medo e a confiar mais em si mesmas.
Além disso, o jiu-jítsu também trouxe benefícios para a saúde mental. Algumas praticantes relataram melhora da ansiedade, da insônia, da dependência do cigarro e até do colesterol, sem o uso de medicamentos. Para elas, o treino se tornou um cuidado importante com a saúde e o bem-estar.
Preconceito, assédio e falta de reconhecimento
Apesar de tudo isso, o caminho não é fácil. As mulheres relataram situações de preconceito, invisibilidade e até assédio dentro das academias. Uma delas contou que foi abordada de forma inadequada por um colega e ficou sem reação no momento.
Outro ponto difícil é o reconhecimento dentro do esporte. Algumas mulheres relataram demora excessiva para avançar de faixa, mesmo tendo experiência, dedicação e competência. Uma entrevistada contou que levou 13 anos para passar da faixa marrom para a preta, sentindo-se ignorada na academia, mesmo dando aulas melhores que muitos homens já graduados.
Também há desafios ligados aos estereótipos. Muitas vezes, as mulheres são vistas como mais fracas ou menos capazes. Em aulas mistas, algumas relataram ser tratadas com menos respeito ou não receber o mesmo incentivo que os homens durante os treinos.
Essas experiências mostram que a permanência das mulheres no jiu-jítsu exige resistência diária. Não é apenas uma luta esportiva, mas também social, por respeito, igualdade e reconhecimento.
A força da representatividade
Um ponto importante destacado no estudo é a representatividade. Ver outras mulheres ocupando espaços de destaque no jiu-jítsu faz diferença. Isso inspira quem está começando e ajuda a quebrar a ideia de que o tatame é um lugar só para homens.
Por isso, muitas praticantes fazem questão de apoiar iniciantes, lembrando como foi importante, para elas mesmas, receber ajuda no começo. Criar redes de apoio entre mulheres é uma forma de fortalecer a presença feminina no esporte.
No fim, o jiu-jítsu aparece como um espaço cheio de contrastes. Ao mesmo tempo em que expõe dificuldades e injustiças, também oferece força, união e transformação pessoal. Para essas mulheres, vestir o kimono é carregar histórias, cicatrizes e coragem — e seguir lutando, dentro e fora do tatame.
Adissertação “A mulher na arte suave: uma análise fenomenológica da participação feminina no jiu-jítsu brasileiro” pode ser acessada gratuitamente na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP