Queda das mortes violentas intencionais convive com aumento de feminicídios e da letalidade policial no País.
Escrito por: Jornal da USP
Retirado de: Jornal da USP
Embora o Brasil tenha atingido o menor número de mortes violentas intencionais dos últimos anos — com uma queda de 8,2% —, essa redução não beneficiou toda a população de forma igual. Enquanto alguns tipos de homicídios caíram, os casos de feminicídio e as mortes causadas por intervenções policiais registraram um aumento significativo em todo o país.
O alerta é da pesquisadora Ariadne Natal, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), com base nos dados do mais recente Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Segundo a especialista, é necessário analisar o indicador geral em detalhes para compreender o problema. O cálculo de mortes violentas reúne diferentes crimes, como homicídios comuns, feminicídios, lesões corporais seguidas de morte e mortes ocorridas em ações policiais. Como cada uma dessas categorias segue ritmos diferentes, a queda do índice geral pode passar a falsa impressão de que o país ficou mais seguro para todos.
“Quando olhamos para as mulheres, para a população negra e para as mortes decorrentes de intervenção policial, ainda temos um cenário muito preocupante”, explica Ariadne Natal.
Aumento do feminicídio e os perigos no ambiente doméstico
Os dados mostram que 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio no país em um único ano, o que representa um aumento de 4%. Do total de agressões fatais, 96,4% foram cometidas por homens. Na maioria esmagadora dos casos, o agressor era o próprio parceiro da vítima (60,9%) ou o ex-companheiro (18,9%).
A pesquisadora da USP destaca que a violência de gênero tem dinâmicas próprias e costuma acontecer dentro da própria casa da vítima, alimentada por comportamentos de posse, ciúmes e controle.
“O feminicídio não é uma violência praticada por desconhecidos. Ele envolve pessoas de grande proximidade e vínculo afetivo”, afirma a especialista. O crime costuma ser a etapa final de um ciclo de agressões verbais e físicas que já vinha acontecendo, o que exige que o poder público crie formas de intervir na proteção da mulher antes que o caso se torne fatal.
Crescimento da letalidade policial e caminhos para a prevenção
Outro ponto crítico apontado pelo levantamento é o aumento de 5,4% nas mortes provocadas por ações policiais, totalizando 6.602 vítimas no período analisado.
Para a pesquisadora, esse resultado está diretamente ligado às escolhas feitas na gestão da segurança pública. Como exemplo positivo, ela aponta que o uso de câmeras nas fardas e a fiscalização mais rigorosa em São Paulo demonstraram ser ferramentas eficientes para reduzir o uso excessivo da força.
A especialista reforça que operações ostensivas e truculentas não apenas aumentam a mortalidade da população, mas também colocam os próprios policiais em situações de maior risco. Segundo a pesquisadora, o principal desafio do país é mudar a cultura de resolver conflitos com violência e colocar a proteção e a preservação da vida no centro das políticas públicas.