Quando o lazer também exclui: o racismo vivido por pessoas amarelas no Brasil

Estudo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP revela como o racismo molda as escolhas de lazer de pessoas amarelas no Brasil

Escrito por: Milena Miyazaki – Sob supervisão de Antonio Carlos Quinto e Silvana Salles

Retirado de: Jornal da USP

O momento de descansar, praticar um esporte ou sair com os amigos deveria ser sinônimo de liberdade, mas para muitas pessoas amarelas no Brasil o lazer também é um espaço de exclusão. Uma pesquisa desenvolvida na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP revela que piadas com olhos puxados, comentários ofensivos e “brincadeiras” sobre o desempenho escolar funcionam como barreiras invisíveis, afastando descendentes de asiáticos dos momentos de convivência comunitária.

O estudo faz parte da tese de doutorado do geógrafo Flávio Daiji Kishigami, sob orientação do professor Edmur Antonio Stoppa. A pesquisa investigou como a discriminação contra pessoas amarelas se manifesta no cotidiano e prejudica a rotina de descanso e diversão — um direito essencial para o bem-estar de qualquer pessoa.

Para entender essa realidade, o pesquisador combinou duas abordagens: aplicou um questionário com 140 pessoas amarelas e realizou entrevistas em profundidade com outros 25 participantes. A intenção foi mapear quais comentários preconceituosos são mais frequentes e como eles afetam a vida das vítimas.

Preconceito disfarçado de brincadeira

A pesquisa identificou que as ofensas mais comuns envolvem comentários sobre o corpo e sexualidade, como a ideia preconceituosa de que homens asiáticos teriam pênis pequenos. Também aparecem rótulos que parecem positivos, mas isolam a pessoa, como a obrigação de ser sempre inteligente, estudioso e especialista em exatas. O levantamento mostrou ainda que homens amarelos costumam ter sua masculinidade ridicularizada por piadas, enquanto mulheres são frequentemente vistas apenas sob estereótipos sexuais.

O autor explica que esse preconceito acontece muito por meio do “racismo recreativo” — quando a discriminação é mascarada de humor ou piada. Essa prática é perigosa porque permite que quem comete a agressão pareça uma pessoa simpática e engraçada, enquanto diminui o outro sem assumir que está praticando uma violência.

Diferente do racismo que atinge negros e indígenas no Brasil, marcado por graves barreiras de acesso ao poder e pela violência direta do Estado, o racismo contra pessoas amarelas opera de forma “horizontal”. Ou seja, ele acontece no dia a dia, nas conversas casuais e nos shows de comédia, criando um ambiente desconfortável que afasta o indivíduo do grupo social.

“O colonialismo não inventou apenas o negro como um corpo destinado à exploração; inventou uma gramática racial inteira, sendo o branco como uma medida universal, o indígena associado ao atraso e o amarelo como um trabalhador útil, disciplinado, mas um estrangeiro permanente, porque a gente nunca é considerado daqui do Brasil”, destaca Kishigami.

A busca por espaços seguros

Como consequência desse desconforto, estudos sobre hábitos de lazer mostram que pessoas amarelas no Brasil tendem a buscar atividades mais individuais e solitárias, como leitura ou artes em casa, evitando espaços coletivos onde o preconceito costuma aparecer. Segundo o Censo de 2022 do IBGE, essa população representa 0,4% dos brasileiros, sendo uma minoria pouco representada nas discussões sobre preconceito.

Para combater essa sensação de isolamento, muitos descendentes de asiáticos têm criado grupos de estudo e comunidades de acolhimento. Para o pesquisador, esses locais funcionam como espaços seguros de pertencimento e de resgate cultural.

O estudo conclui que a educação é um passo importante, mas não suficiente por si só. Para combater o problema, é necessário desmontar todos os estereótipos e construir formas de convivência em que cada pessoa seja respeitada em sua dignidade humana, permitindo que todos possam frequentar qualquer ambiente de lazer com segurança e sem sofrer discriminação.

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