Pesquisa analisou registros do Ministério da Saúde entre 2015 e 2023 e identificou perfil predominante de quem sofre a violência: mulher, jovem, parda e com baixa escolaridade
Escrito por: Susana Oliveira* sob supervisão de Rose Talamone*
Retirado de: Jornal da USP
As mulheres trans e travestis representam a grande maioria das vítimas de violência registrada contra a população de pessoas transgênero no Brasil. Elas correspondem a 65% de todas as 45,7 mil notificações de agressão e abusos contabilizados no país entre 2015 e 2023.
A descoberta faz parte de um estudo desenvolvido na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a Universidade Nova de Lisboa. A pesquisa analisou os registros oficiais do Ministério da Saúde para identificar quem são as pessoas que mais sofrem violência, onde esses episódios acontecem e quais são os tipos de agressão mais comuns.
Além da predominância de mulheres trans, os dados revelam um perfil claro das vítimas mais atingidas: jovens de 18 a 29 anos (36% dos casos), pessoas de cor ou raça parda (44%) e indivíduos com baixo nível de escolaridade (23%). A agressão física foi o tipo de violência mais frequente, aparecendo em 65% das notificações.
Acúmulo de preconceito e falta de oportunidades
Para os pesquisadores, a violência não acontece de forma isolada, mas é resultado de uma sequência de dificuldades que essas pessoas enfrentam ao longo da vida.
O autor principal do estudo, o pesquisador Gilberto da Cruz Leal, explica que o problema costuma começar dentro de casa e se estende para a vida comunitária.
“Mulheres trans frequentemente enfrentam a rejeição da família ainda jovens e acabam saindo da escola por causa do preconceito. Sem o apoio dos familiares e sem conseguir completar os estudos, muitas são empurradas para a informalidade ou para o trabalho na rua, ficando muito mais expostas à agressão física nas cidades”, esclarece o pesquisador.
A pesquisa também considerou as violências praticadas contra a própria integridade física, como formas de sofrimento provocadas pelo preconceito e pela exclusão social.
Desigualdade entre as regiões do país e falta de registros
O levantamento identificou que a maior quantidade de notificações de violência está concentrada nas regiões Sul e Sudeste. No entanto, os cientistas alertam que isso não significa que essas regiões sejam necessariamente as mais violentas do Brasil.
O número mais alto no Sul e no Sudeste reflete a existência de postos de saúde e hospitais mais bem preparados para acolher as vítimas, reconhecer sua identidade e registrar a agressão nos sistemas do governo. Em outras regiões, muitos casos deixam de ser contabilizados porque as pessoas agredidas deixam de procurar ajuda médica ou têm sua identidade ignorada durante o atendimento.
Esse preconceito dentro do próprio sistema público de saúde é conhecido como violência institucional e faz com que o número real de vítimas seja ainda maior do que o mostrado pelas estatísticas oficiais. O objetivo dos pesquisadores é que os dados ajudem a orientar políticas públicas de proteção e garantam um atendimento mais humano e seguro para toda a população.