Retirado de: Jornal da USP
Escrito por: Jornal da USP
Organizada por estudantes, pesquisadores e professores, a primeira edição da Semana da Diversidade LGBTQIAPN+ da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP quer lembrar o passado, discutir o presente e projetar um futuro de oportunidades para a comunidade dissidente de gênero. A ação, que homenageia pessoas pioneiras do movimento LGBT+, distribuirá cartilhas, banners e vídeos educativos para promover um letramento social em gênero e sexualidade. As atividades começaram nesta segunda (24) e se estendem até sexta-feira (28), com palestras que discutirão Diversidade, Equidade e Inclusão LGBTQIAPN+ na academia e no mercado de trabalho.
A Semana de Diversidade da FEA acontece em comemoração ao Mês do Orgulho, momento em que a atenção está voltada ao respeito por gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis, pessoas transgênero, queer, intersexo, agênero e assexuais ou arromânticas, além de pansexuais e não binárias. Durante a semana, a faculdade terá banners espalhados pelos corredores, homenageando pessoas pioneiras no movimento. Entre elas, Marsha P. Johnson, João Nery, Sylvia Rivera, Paulo Vaz (Popó Vaz), Dandara dos Santos, Anderson Herzer, dentre outros nomes que representam resistência e força.
“Pra mim, um evento de diversidade dentro de um espaço acadêmico como a USP, que é uma das mais conceituadas universidades da América Latina, é um espaço fundamental de cidadania e de compromisso de garantir o direito constitucional da dignidade de todas as pessoas humanas. E isso inclui as pessoas que existem dentro do universo da diversidade LGBTQIAPN+”, afirma Fabian Algarte da Silva, profissional de ciências contábeis e coordenador nacional do Instituto Brasileiro De Transmasculinidades (Ibrat).
Fabian integra o projeto TransFormar, do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Gênero, Raça e Sexualidade (Generas) da FEA, e será uma das pessoas convidadas para discutir políticas públicas, acessibilidade e permanência nos espaços de estudo e trabalho. O tema será abordado na primeira das palestras promovidas pela Semana de Diversidade da FEA, que devem acontecer nas últimas quarta, quinta e sexta-feira do mês.
Um dos materiais elaborados pela organização, a cartilha de letramento divulga informações para promoção da convivência em uma sociedade plural e diversa, incluindo: identidades de gênero e sexualidades plurais, a importância dos pronomes pessoais, como utilizar uma linguagem sem marcadores de gênero, diferenças entre sexo e gênero, descontruir estereótipos cisheteronormativos, dentre outros assuntos latentes que impactam a vida de milhares de pessoas transgênero, travestis, transmasculinas e não binárias, bem como pessoas com orientações sexuais dissidentes, como lésbicas, gays, bissexuais, panssexuais, entre outras.
Resistências: banheiro inclusivo
A organização informou que haverá ainda um mural de cartas para as pessoas poderem compartilhar suas vivências e demandas. A instalação de placas orientativas para uso dos banheiros de forma inclusiva foi integralmente aceita pela FEA, por meio do apoio da Comissão de Inclusão e Pertencimento da unidade. Porém, de acordo com apuração do Jornal da USP, ainda encontra burocracias para serem instaladas formal edefinitivamente na faculdade.
“Inicialmente, colocar as placas de identificação nos banheiros das identidades femininas e masculinas era uma intenção nossa para a Semana, mas topamos de frente com alguns aspectos burocráticos e institucionais que eram, de certa forma, previsíveis, mas que esperamos conseguir superar em breve. A FEA se encontra atrasada em relação a outras faculdades e universidades nesse quesito. Precisamos melhorar”, aponta Hellen Figueiredo Neiva, estudante do mestrado em Controladoria e Contabilidade na FEA e integrante do Generas.
Em sua pesquisa, ela estuda a diversidade de raça e gênero nas organizações. “Eu me interesso por como as organizações reportam essas informações em seus relatórios corporativos, quais são suas terminologias e percentuais, se de fato há representatividade ou simples ‘diversity washing’, e como isso reflete o contexto social nacional”, explica Hellen sobre empresas que maquiam uma falsa diversidade, que não faz parte da cultura organizacional.
“Até quando a urgência em discutir pautas sociais com a comunidade acadêmica será atrasada ou até mesmo negligenciada pelos ‘trâmites’? É preciso exercitar a flexibilidade, o acolhimento e a escuta quando falamos sobre vivências dissidentes”, destaca Akira Aikyo, estudante de mestrado em Administração de Empresas e integrante do Generas. “Em um passado não muito distante, pessoas como eu precisaram se esconder para existirem nesses ambientes. Hoje celebramos a nossa existência e a das nossas ancestrais, levamos para a universidade nomes de ativistas que desafiaram o sistema e permitiram que chegássemos até aqui”, diz.
“Essa proposta é uma das mais importantes, e faz parte de um processo de mudança que envolve uma sensibilização da comunidade toda”, lembra Silvia Casa Nova, professora da FEA e uma das fundadoras do Generas, que também falou ao Jornal da USP.
Para Akira, a Semana de Diversidade da FEA é um sinal de resistência e um lembrete da existência de pessoas diversas na área de negócios, além de um exercício de negociação e alianças para mobilizar recursos e voluntários. “Acredito que para a diversidade acontecer e ocupar os corredores da FEA é necessário um esforço coletivo: universidade, docentes, discentes e comunidade”, diz.
A Primeira Semana de Diversidade LGBTQIAPN+ da FEA é uma realização do Generas em parceria com a Comissão de Inclusão e Pertencimento, o Centro Acadêmico Visconde de Cairu (CAVC), o Coletivo LGBT da FEA, a empresa FEA Júnior e o Programa de Educação Tutorial. Também participa o Ibrat. As ações do grupo para a Semana incluem três palestras sobre Diversidade, Equidade e Inclusão, a DEI, que junto da sigla ESG (Governança Ambiental, Social e Corporativa, em português) têm exigido compromisso do mercado corporativo.
No primeiro e último dia de palestras, a equipe Generas irá promover um momento de socialização e diálogo entre as pessoas palestrantes e participantes da semana por meio de um coffee break servido pela Trava Truck, reconhecido como um empreendimento trans. A organização também deve distribuir bottoms e porta-crachás para as pessoas que participarem das atividades.