“Canção para ninar menino grande” explora construção da sociedade patriarcal brasileira

Quinto romance de Conceição Evaristo conta a história de Fio Jasmim e dos encontros de sua vida; a obra está na lista de livros de leitura obrigatória para a Fuvest 2026

Retirado de: Jornal da USP

Escrito por: Carolina Borin

“Este livro é oferecido a todas as pessoas que se enveredam pelos caminhos da paixão e que, mesmo se resfolegando em meio a muitas pedras, não se esquecem do gozo que as águas permitem. É uma celebração ao amor e às suas demências. 

É ainda um júbilo à vida, que me permite embaralhar tudo: vivência e criação, vivência e escrita. Escrevivência”

É com esse prefácio que se inicia Canção para ninar menino grande, da escritora, ficcionista e ensaísta Conceição Evaristo. O livro é o quinto romance da autora e foi publicado em 2018. Sua 2ª edição foi lançada quatro anos depois, em novembro de 2022. A obra entrou na lista de leitura exigida para o vestibular da Fuvest 2026, que seleciona candidatos para os cursos da USP. A nova lista é composta somente de autoras de língua portuguesa, contemplando escritoras brasileiras e estrangeiras, e trazendo visibilidade a essas mulheres que, muitas vezes, permaneceram à margem do circuito literário.  

Conceição Evaristo posiciona a mulher negra como figura central em seus textos, analisa Maria Paula de Jesus Correa, doutoranda em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “Ela escreve sobre a memória, a ancestralidade, o racismo, a desigualdade, a discriminação de gênero e de classe, e sobre os saberes afro-brasileiros”, salienta Maria Paula.

Mas, nesse romance, como lembra a pesquisadora, a autora subverte esse protagonismo. Em 16 capítulos, uma breve introdução e um posfácio, o livro conta a história de Fio Jasmim, um homem negro, ferroviário, casado e que se relaciona com várias mulheres pelas cidades por onde passa, viajando a trabalho. O romance é construído a partir das diferentes vozes femininas colhidas pela narradora, que também faz parte do “grupo de amigas”, informa a pesquisadora.

A “escrevivência”

Além da mistura entre ficção e realidade, Canção para ninar menino grande, assim como outras obras da escritora, articula, desde o início do romance, a ideia de escrevivência. “Escrevivência é um termo – hoje, um conceito e um método – criado por Conceição, que aponta o ato de escrita de mulheres negras com o objetivo de retomar a voz das escravizadas que foram silenciadas pelos escravocratas para contar a história de negras e negros no Brasil”, explica a pesquisadora Maria Paula. Nas palavras da autora, a escrevivência é também esse texto que se esgota e se confunde com um sujeito coletivo.

Nesta obra específica, Maria Paula pontua: “A escrevivência se traduz na obra ao contar a história de um homem negro e de oito mulheres – nem todas elas negras – dentro de uma sociedade estruturalmente racista, que desumaniza pessoas afrodescendentes sequestrando-lhes as subjetividades”. Como diz a própria Conceição no livro: “Capto como testemunha ocular ou como ouvinte a dinâmica de vidas que se confundem com a minha, por algum motivo. Fui uma das mulheres de Fio Jasmim; em alguma circunstância, pode ser (…) O moço não me é estranho, como as mulheres que estiveram com ele também não”.

Universo feminino

O livro resgata a humanidade das personagens ao mesmo tempo em que lhes dá a voz, por meio de uma narração atenta e minuciosa. “A autora vem construindo, em sua obra uma, coleção de personagens que alcançam uma pluralidade de características, emoções, anseios e desassossegos do universo feminino, e que buscam humanizar pessoas negras”, afirma Maria Paula. 

Do ponto de vista da análise, a pesquisadora ressalta um aspecto fundamental: “À primeira vista, pode parecer que o romance traísse essa trajetória, já que toma como protagonista um homem negro que reforça os estereótipos influenciados pelos princípios da sociedade patriarcal, destinados a esta masculinidade que, para muito além de ser impedido de chorar, não deve experienciar nenhuma emoção ou sentimento”, diz a doutoranda. “Todavia, a autora subverte essa leitura ao criar uma multiplicidade de traços para Fio Jasmim com a finalidade de formar, para este homem, uma ‘imagem caleidoscópica’ capaz de alcançar a complexidade que é ser homem negro em um país estruturalmente racista”, ressalta. 

Além da questão de gênero, o romance de Conceição Evaristo lança luz sobre as questões de raça. “Indicar Canção para ninar menino grande garante a presença de uma diversidade de mulheres, a maioria negra, a partir da qual será construído um protagonista negro”, comenta Maria Paula. “O masculino desenhado pela autora não é capaz de submeter o feminino, que, na estrutura do romance, é dado como coadjuvante. Isso porque cada mulher é a personagem principal de sua própria história enquanto Jasmim é apenas o fio que alinha o conjunto.”

Últimas Notícias

Receba as nossas notícias!

Clique no botão abaixo parra se cadastrar no nosso banco de usuários e receber atualizações sobre nossas notícias!

O botão abaixo abrirá uma pagina diferente:

Contato

Descubra mais sobre Deinformação

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading

Acessar o conteúdo