Desigualdade racial desafia estrutura e linguagem das universidades brasileiras

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Em entrevista à Rádio USP, o professor Rodrigo Ednilson de Jesus, da Universidade Federal de Minas Gerais e estudioso do tema, destacou os desafios e possibilidades de construção de uma universidade realmente plural e antirracista

Retirado de: Jornal da USP

Escrito por: Rose Talamone

Na última semana, o campus da USP em Ribeirão Preto recebeu o professor Rodrigo Ednilson de Jesus, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pesquisador nas áreas de desigualdade racial, políticas públicas e inclusão no ensino superior, para uma série de eventos. 

Além de ministrar palestra sobre Quem quer [pode] ser negro no Brasil?, participou do Curso de Formação e Letramento Étnico-Racial. Em entrevista à Rádio USP, o professor afirmou que o enfrentamento ao racismo nas universidades públicas vai muito além dos editais de ingresso. Para ele, a mudança real exige o reconhecimento do racismo estrutural que molda a própria organização das instituições de ensino superior. “Enquanto a universidade não reconhecer que o racismo está na sua raiz, estruturando práticas, normas e regras, não avançaremos nem na permanência nem na titulação.” 

O professor ainda ressaltou que políticas de ação afirmativa, como as cotas raciais, são apenas o meio do caminho. “O objetivo não é apenas formar mais doutores negros e indígenas, mas garantir que essa formação reverbere em suas comunidades e transforme realidades.” 

Outro ponto central de sua análise foi o papel da comunicação pública nesse processo. Ednilson enfatiza que a linguagem institucional pode ser uma ponte ou uma barreira para o pertencimento. “A linguagem muitas vezes é produzida para os pares, não para dialogar com quem está fora da universidade. Isso reforça exclusões”, aponta. Para ele, é necessário abandonar a neutralidade e assumir uma postura ativa, que amplifique vozes historicamente marginalizadas.

Sobre as polêmicas em torno das comissões de heteroidentificação, o professor defende que falta compreensão sobre o processo. “Fazemos heteroidentificação o tempo todo na vida cotidiana. O problema é o desconhecimento e os preconceitos que ainda orientam parte da ciência e da sociedade”, diz.

Ednilson também destaca que ações transformadoras precisam envolver a avaliação do impacto das universidades na vida das pessoas. “Não basta garantir o acesso. Precisamos entender como a formação impacta o mercado de trabalho e se está permitindo que essas pessoas tenham uma inserção não precarizada. Isso pode acender o sonho de outros jovens”, afirma.

Para encerrar, o professor lembra que diversificar as narrativas passa, necessariamente, por diversificar os narradores. “Não basta falar de diferentes perspectivas, é preciso garantir que novas vozes também contem as histórias, editem e escolham os temas. É assim que mudamos a comunicação e, com ela, a universidade.”

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