Dissertação de mestrado defendida na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) mapeia estratégias que promovem equidade entre meninos e meninas e expõe lacunas na formação de professores para lidar com a diversidade sexual em sala de aula
Escrito por: Mariana Gaia–Sob supervisão de Antonio Carlos Quinto
Retirado de: Jornal da USP
As aulas de Educação Física na escola ainda enfrentam um grande desafio: superar a divisão ultrapassada entre “coisas de menino” e “coisas de menina” e acabar com a exclusão de alunos com menos habilidade ou que não se encaixam em padrões tradicionais.
É o que revela um estudo de mestrado realizado na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP pelo pesquisador Nickolas Luiz de Andrade Almeida. Ao analisar diversas pesquisas sobre o tema, ele identificou por que essa separação ainda acontece e como os professores podem mudar essa realidade para que todos participem juntos.
Segundo o pesquisador, desde pequenos, meninos e meninas costumam receber estímulos diferentes fora da escola. Os meninos muitas vezes são mais incentivados ao futebol e a esportes de força e agilidade, enquanto as meninas recebem menos incentivos para desenvolver o mesmo histórico de movimentos. Quando chegam à aula de Educação Física, essa diferença vira motivo de exclusão, fazendo com que os alunos considerados “melhores” dominem o jogo e deixem as meninas e outros colegas de fora.
Esportes diferentes nivelam a turma
Uma das principais descobertas do estudo é que mudar os esportes ensinados na aula ajuda a equilibrar o jogo. Em vez de focar apenas no futebol ou no vôlei, incluir modalidades pouco conhecidas no Brasil — como a bocha, o beisebol e o corfebol (um esporte misto parecido com o basquete em que homens e mulheres jogam juntos no mesmo time) — faz toda a diferença.
Como quase ninguém praticou esses esportes antes, todo mundo começa do mesmo nível. Meninos e meninas aprendem as regras juntos a partir do zero, o que diminui a pressão e permite uma participação muito mais justa.
Além disso, o uso de danças, brincadeiras cooperativas e materiais como vídeos e reportagens que valorizem atletas mulheres ajuda a desconstruir preconceitos no dia a dia da escola.
Falta de preparo nos cursos de faculdade
O estudo da USP destaca que a raiz do problema muitas vezes está na própria formação dos professores. Muitas faculdades de Educação Física ainda focam quase exclusivamente no desempenho físico e no treinamento de esportes tradicionais, sem ensinar o futuro professor a lidar com a diversidade e a incluir grupos que costumam ser deixados de lado, como a comunidade LGBTQIA +.
Por falta dessa discussão na faculdade, muitos profissionais chegam às escolas sem saber como agir ao presenciarem situações de preconceito ou ao tentarem integrar turmas divididas.
Para piorar, falar sobre igualdade de gênero na escola ainda é um tema tratado como tabu por muitas famílias e comunidades. O pesquisador reforça que o objetivo dessa discussão não é impor nada, mas sim garantir um ambiente onde nenhuma criança ou jovem seja impedido de brincar e aprender.
Dicas simples para transformar as aulas
O pesquisador da USP deixa recomendações práticas para os professores que atuam nas escolas, especialmente na rede pública:
- Misturar meninos e meninas na mesma equipe em todas as atividades.
- Incentivar alunos que têm mais dificuldade de movimento, sem deixar que os mais habilidosos dominem todo o tempo de jogo.
- Troca jogos de competição por brincadeiras cooperativas, onde a turma inteira precisa se ajudar para vencer.
- Nunca reforçar frases e ideias ultrapassadas, como dizer que existe brincadeira “de homem” ou “de mulher”.