Pesquisa da USP avaliou como a participação em um movimento urbano de luta por moradia influenciou as mulheres em suas trajetórias pessoais
Retirado de: Jornal da USP
Escrito por: Gabriela César
Movimentos sociais podem promover a emancipação política, civil e social das mulheres que os integram. A dissertação de mestrado Vozes de resistência e história oral: trajetórias de lideranças femininas no MTST em São Paulo, desenvolvida pela pesquisadora Bruna Honda Vargas no Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, sob orientação da professora Claudia Moraes de Souza, avaliou que mulheres do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) têm a possibilidade de conquistar autoestima, autonomia e reconhecimento de gênero, classe e raça por meio da organização do movimento social.
A pesquisa demonstra que 70% do MTST é composto de mulheres. Esse fato decorre do aspecto íntimo da casa para as mulheres, pois são seus espaços de segurança, criação de filhos, cuidado com idosos e, muitas vezes, seus ambientes de trabalho.
O caráter emancipatório do movimento se dá por meio da convivência das mulheres com outros membros que possuem histórias de vida semelhantes e do cotidiano da luta, que permite um aprofundamento no reconhecimento de seus direitos garantidos por lei. “Elas chegam no movimento pela casa e permanecem pela identificação”, afirma Bruna.
De acordo com a pesquisadora, o MTST nasceu a partir do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), motivado pelo déficit habitacional nas cidades devido ao intenso êxodo rural durante os anos 1990. Hoje, o movimento conquistou mais de 900 apartamentos no Estado de São Paulo e atua ativamente para além das moradias, incluindo iniciativas para garantia de segurança alimentar, oferecendo alimentos gratuitos para a população.
Bruna escolheu pesquisar o MTST para trazer ao debate público as histórias das participantes do movimento não apenas como vítimas sociais, que é forma usual pela qual mulheres são retratadas, mas sim como protagonistas de resistência. A partir de revisão bibliográfica e entrevistas semiestruturadas com mulheres que participam do movimento, a pesquisadora pôde explorar os desafios e conquistas delas dentro da organização.
Antes x Depois do MTST
Foram quatro as entrevistadas: Andreia, Cláudia, Débora e Joana. Elas apresentavam questões em comum antes de se juntarem ao MTST, como famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica, maternidade solo e episódios de violência. Após a integração ao movimento, três delas foram incentivadas a dar continuidade aos estudos (ensino médio e superior) e aprenderam sobre seus direitos civis e políticos durante as rodas de conversas. “O movimento leva à reflexão crítica sobre a vida”, destaca Bruna.
Ainda que o MTST tenha trazido os benefícios apresentados, as entrevistadas pontuaram que o machismo ainda é uma questão latente no movimento, com poucas mulheres em cargos de liderança se comparadas aos homens. Além disso, elas relatam que há uma sobrecarga emocional em decorrência da luta por moradia, como mudanças para lugares ocupados e pausa na carreira para dedicação à causa.
A pesquisadora acredita que seu mestrado tem relevância na criação de memória coletiva sobre o MTST. Ela também destaca a importância do retorno da pesquisa para o próprio movimento para que, com os resultados obtidos, a organização consiga fazer um planejamento estratégico e melhorar as questões apresentadas.