Estudo identifica em São Paulo “espaços-territórios” em que pessoas negras LGBT+ têm seus afetos mais bem compreendidos

Pesquisa de doutorado na área de enfermagem identificou locais em que as relações levam em conta aspectos das ancestralidades negras

Escrito por: Antonio Carlos Quinto

Retirado de: Jornal da USP

Na cidade de São Paulo, os espaços que permitem às pessoas negras LGBT+ viverem seus afetos e emoções, seja em relações familiares, seja em relações de amizade ou até sexuais, acabam se tornando territórios que podem ser considerados como “quilombos urbanos”. Desde o final de 2020, o enfermeiro Alef Diogo da Silva Santana percorreu a cidade e identificou locais em que essas pessoas vivem seus afetos e emoções. O percurso fez parte do estudo de doutorado de Alef, que ele defendeu na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP, dentro do Programa de Pós-Graduação Interunidades de Doutoramento em Enfermagem. De acordo com o pesquisador, há nesses locais a produção de cuidados, que tem muito a ver com os territórios identificados.

Para realizar a pesquisa, intitulada Diferenças, dengo e território: uma etnografia das relações de pessoas negras sexo-gênero diversas na cidade de São Paulo, Alef entrevistou e conviveu com pessoas, acompanhando parte de suas trajetórias, por um período médio de três anos. E foi por intermédio dessas pessoas que ele conheceu e centrou seu estudo em dois espaços-territórios frequentados por esse público, composto, em sua totalidade, de pessoas negras de diferentes identidades de gênero e orientações sexuais.

“Elas frequentavam dois bares na área central da cidade que também foram objeto de minha pesquisa”, conta o enfermeiro ao Jornal da USP. “São locais que podemos denominar como ‘quilombos urbanos’”, descreve. Todo o percurso de Alef pelos bares, bem como o acompanhamento dos envolvidos no seu estudo, foi um trabalho etnográfico.

A pesquisa envolveu trabalho de campo, diários de campo e observação participante, clássicos da tradição antropológica, a partir da construção de vínculos e de estranhamento de questões que são tidas como “normais”. O pesquisador participou da vida cotidiana e dos rituais do grupo para compreender suas visões de mundo e seus sistemas de significados. “Houve uma forte interação com as ciências sociais e humanas em saúde, em especial a antropologia, em meu trabalho. Além disso, o envolvimento com as pessoas interlocutoras da pesquisa foi além de simples entrevistas. Em minhas observações-participantes, chegamos a visitar terreiros, por exemplo, que também fizeram parte do trabalho de campo da pesquisa”, lembra Alef.

Ancestralidades negras

Dentre as observações de Alef está a constatação de que as relações entre as pessoas que frequentam esses espaços são marcadas pela valorização da ancestralidade negra. “São territórios afetivos para o reconhecimento da negritude. Percebi que nesses locais há um outro ritmo de se construir a cidade”, descreve. “É lá que essas pessoas negras LGBT+ vivem de forma muito livre as suas afetividades”, observa o pesquisador.

Alef acrescenta ainda que terreiros de Umbanda e de Candomblé também compõem essas redes afetivas, visto que alguns desses espaços foram criados a partir de lideranças negras. “Todos esses locais podem compor espaços de produção de cuidados. E quando falo ‘produção de cuidado’ é num sentido mais livre, diferente do que acontece no ambiente hospitalar”, afirma.

Outro caminho

Em relação à “produção de cuidado” que foi experienciada em sua pesquisa, Alef a descreve como um outro caminho, uma outra forma de pensar a produção do cuidado, e que ultrapassa os métodos e as formas tão tradicionais aplicadas no campo da enfermagem. “Estamos diante de um outro caminho, que se mostrou mais afetivo e engajado, menos mecânico e protocolar, e que dá outros sentidos à palavra cuidar”, defende, ressaltando que seu estudo “permitiu pensar as afetividades vivenciadas entre as pessoas negras LGBT+ como uma forma de cuidar do outro e se cuidar”.

O pesquisador descreve como funciona um atendimento de enfermagem e a produção de um “ecomapa” de um usuário na atenção primária à saúde. “Todas as relações do usuário são mapeadas pela enfermeira ou enfermeiro, desde as relações pessoais, [até as relações] com os territórios. Há questões do tipo ‘Você tem alguma religião/espiritualidade?’, ‘Como é a relação com sua família?’”, descreve. Contudo, Alef diz que essa forma de produzir e compreender as relações dos usuários na atenção primária é um tanto quanto “protocolar demais”, em que não há espaço para reconhecer e compreender o papel das relações afetivas dessas pessoas com os territórios e vice-versa, por exemplo. “Meu estudo surge como um outro caminho possível para compreender a produção de cuidado. É uma visão mais afetiva.”

Os territórios identificados pelo pesquisador, e que foram objetos de estudo na pesquisa, são um espaço de trocas culturais: fundado por uma travesti negra, um bar onde também frequentam pessoas negras LGBT+ e os terreiros de Umbanda e Candomblé, que também fizeram parte do percurso. “São territórios afetivos marcados por raça, gênero, sexualidade e reconhecimento da negritude. As pessoas conseguem se reconhecer nelas mesmas e produzem os afetos que eu denomino em meu estudo como o ‘dengo’”, descreve Alef.

Como explica o pesquisador, a palavra “dengo” tem origem africana, da língua banto, e significa “doçura”, “carinho” e “atenção”. O enfermeiro defende que sua pesquisa pode trazer algumas contribuições teórico-metodológicas para o campo da saúde coletiva e da própria enfermagem, como o alargamento do conceito de “território”, bem como de rede social de apoio, e também de valorizar as dimensões emocionais e afetivas na produção do vínculo e do cuidado com o outro. Além disso, traz elementos para repensar as políticas de saúde que pensam o cuidado, como o da população negra, população LGBT+, povos de terreiro, entre outros.

A tese deste estudo também pode ser disponibilizada na reportagem:

https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/83/83131/tde-21112024-162226/publico/AlefSantana.pdf

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