Experimento com ratas mostra que tratamento focado em apenas um receptor do estrogênio confere proteção metabólica sem risco de estimular tumores no útero e nas mamas
Escrito por: Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP
Retirado por: Agência FAPESP
Uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) descobriu um novo caminho para combater os problemas de saúde provocados pela queda dos hormônios na menopausa. Em vez de repor o hormônio estrogênio de forma geral, como faz o tratamento tradicional, a equipe ativou apenas um “botão” específico dentro das células: o chamado receptor beta de estrogênio.
A descoberta é uma excelente notícia para mulheres que enfrentam complicações de saúde nessa fase da vida, mas que não podem fazer a reposição hormonal comum por terem histórico ou risco de câncer de mama, útero ou ovários.
O estudo foi liderado pela pesquisadora Débora Santos Rocha, com coordenação da professora Alicia Kowaltowski, e contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Os resultados foram publicados em uma importante revista científica da área de fisiologia.
“Ao agir apenas nesse receptor específico, conseguimos reequilibrar o uso de energia pelo corpo e proteger a saúde da mulher sem estimular áreas sensíveis”, explica a pesquisadora Débora Rocha.
Por que a queda hormonal afeta a saúde?
O estrogênio não serve apenas para a reprodução; ele tem um papel central em controlar como o corpo transforma alimentos em energia. Quando a mulher chega à menopausa e a produção desse hormônio cai drasticamente, o organismo sofre diversas alterações:
- Gordura na barriga: Aumenta o acúmulo de gordura profunda na região do abdômen.
- Açúcar no sangue: O corpo passa a ter mais dificuldade para controlar a taxa de açúcar.
- Riscos ao coração: Aumentam as gorduras ruins no sangue e o risco de infarto, derrame e diabetes.
A reposição hormonal tradicional tenta resolver o problema devolvendo o hormônio ao corpo. Porém, ela ativa todas as “portas de entrada” das células ao mesmo tempo. Se a mulher já tiver células com tendência ao aparecimento de tumores em tecidos como mama ou útero, o estrogênio comum pode fazer com que essas células se multipliquem mais rápido.
O segredo da nova estratégia: foco no receptor beta
Dentro das células, existem diferentes tipos de “fechaduras” para o estrogênio se encaixar. O tratamento convencional abre todas elas. Já o novo método testado na USP usou um composto químico que abre apenas a fechadura beta, responsável por organizar o uso de energia, sem mexer com a multiplicação das células do sistema reprodutivo.
Os testes foram feitos em animais e também em células do fígado. Ao ativar apenas o receptor beta, os cientistas observaram melhorias expressivas:
- Taxa de açúcar normal: A quantidade de açúcar no sangue em jejum voltou aos valores saudáveis.
- Pâncreas protegido: As células do pâncreas, que produzem a substância responsável por controlar o açúcar, recuperaram o seu formato saudável.
- Sangue mais limpo: As gorduras ruins que circulavam no sangue caíram para níveis seguros.
- Fígado renovado: O fígado passou a queimar a gordura acumulada de forma completa, impedindo que ela se tornasse prejudicial ao organismo.
Tudo isso aconteceu sem nenhum efeito sobre o útero ou as mamas, comprovando que a técnica é segura contra o risco de incentivar o crescimento de tumores.
“Com essa abordagem, o fígado passa a queimar a gordura totalmente e a transformá-la em energia, o que melhora de forma significativa a saúde de todo o organismo. É importante saber que esse caminho existe para trazer benefícios, algo que não imaginávamos antes”, destaca a professora Alicia Kowaltowski.
Tratar cada mulher de forma única
Embora o novo método não tenha impedido o ganho de peso natural do envelhecimento, ele conseguiu recuperar o funcionamento saudável dos órgãos vitais e proteger o sangue.
Para as pesquisadoras, o objetivo final é criar remédios que deem mais opções de escolha para médicos e pacientes no futuro, permitindo tratamentos personalizados para as necessidades de cada pessoa.
“A menopausa varia muito de mulher para mulher. Se pudermos oferecer tratamentos específicos para diferentes caminhos do corpo, abrimos espaço para opções sob medida. O mais importante é que a mulher não fique sem assistência”, reforça Alicia Kowaltowski.
Próximos passos da pesquisa
Os estudos continuam na USP com uma nova fase. Agora, a equipe da pesquisadora Débora Rocha vai testar a estratégia em um modelo que imita a perda gradual dos hormônios ao longo do tempo, exatamente como acontece no corpo humano durante a transição para a menopausa. O objetivo é identificar o momento exato para agir e prevenir o surgimento de doenças graves.