Livro analisa a musicalidade de povos tradicionais africanos e suas influências no Brasil

A obra recém-lançada reúne textos de pesquisa iniciada em 1984, na regiões Sul e Sudeste do Benin, entre grupos de origem Fon e Iorubá

Escrito por: Maykon Almeida, supervisão de Antonio Carlos Quinto e Silvana Salles

Retirado por: Jornal da USP

A música dos terreiros e dos folguedos brasileiros têm raízes profundas que atravessam o Oceano Atlântico e conectam o Brasil diretamente à África Ocidental. Para entender essa história, o professor Marcos Branda Lacerda, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, acaba de lançar o livro Estudos sobre Música Africana e Afro-Brasileira. A obra reúne quatro décadas de pesquisas sobre como o ritmo, a melodia e as tradições de povos africanos moldaram a cultura brasileira — e como o próprio Brasil também influenciou a música na África.

Publicado pela Editora da USP (Edusp), o livro tem mais de 350 páginas e analisa os costumes musicais e religiosos de dois grupos étnicos principais: os Fon e os Iorubá.

Esses povos viveram em regiões onde hoje ficam países como Benin e Nigéria. Durante a primeira metade do século 18, milhares de pessoas dessa região foram trazidas à força como escravizadas para o porto de Salvador, na Bahia. Junto com elas, vieram ritmos, cantos e saberes que transformaram para sempre a identidade cultural do nosso país.

Uma viagem que mudou os rumos da pesquisa

A história do livro começou em 1984. Na época, Marcos Lacerda era um jovem estudante e viajou para a África carregando apenas um gravador de áudio e um roteiro de estudos. O plano inicial era visitar a Nigéria e o Benin. Porém, por conta de uma reforma na moeda da Nigéria que impediu a entrada de estrangeiros, ele precisou ficar quase três meses confinado no Benin.

Apesar do imprevisto, o tempo no Benin permitiu que o pesquisador mergulhasse fundo nas tradições locais. Ele gravou músicas rituais dedicadas a divindades como os orixás e os voduns (divindades da cultura Fon), além de festas tradicionais que homenageiam os espíritos dos antepassados, como o Gèlède e os Egunguns.

“No início da carreira, é comum querer abraçar o mundo e pesquisar muitos lugares ao mesmo tempo. Eu cometi esse erro, mas tive a sorte de não conseguir entrar na Nigéria. Se tivesse ido aos dois países, não conseguiria me dedicar ao Benin com a mesma intensidade”, relata o professor.

O tambor vai muito além do ritmo

Dividido em 12 artigos, o livro desmistifica a ideia de que a música africana se resume apenas ao ritmo e à percussão.

Na primeira parte da obra, o professor mostra que os músicos africanos dominam estruturas musicais complexas, com combinações ricas de melodias e frases sonoras preparadas para cada ritual. Um dos exemplos analisados é a música tocada no conjunto de tambores bàtá, usados em homenagem a Xangô, divindade associada à justiça, aos raios e ao fogo.

Já a segunda parte do livro mostra como essas técnicas musicais africanas se transformaram no Brasil e na América Latina.

O Brasil também influenciou a África

O estudo traz uma revelação interessante: a troca cultural aconteceu nos dois sentidos. O livro mostra como ex-escravizados que saíram do Brasil e voltaram para o Benin (conhecidos no local como agudás) levaram tradições brasileiras para o continente africano.

Um exemplo dessa mistura é a bourian, uma festa tradicional na cidade de Uidá, no Benin. A festa é uma versão do folguedo brasileiro conhecido como Burrinha (que tem a mesma raiz do Bumba Meu Boi). Nela, uma pessoa mascarada veste uma fantasia colorida e dança como se estivesse montada em uma pequena burra.

O livro também revela que rituais brasileiros ajudaram a criar novos estilos de música entre populações muçulmanas no Benin.

Reencontro com o passado

A obra traz ainda um relato emocionante sobre o retorno do professor ao Benin, 40 anos após sua primeira viagem. Ao visitar as mesmas cidades e reencontrar os locais onde fez as gravações em 1984, Marcos Lacerda registrou o que mudou e o que permaneceu vivo na música e na fé do povo beninense, mostrando que essa tradição continua pulsando forte.

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