Escrito por: Maria Cristiane Barbosa Galvão, professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP
Retirado de: Jornal da USP
O conteúdo apresentado abaixo foi retraduzido para facilitar a leitura e o entendimento.
A ciência costuma ser vista como um espaço de inovação, pensamento crítico e avanço do conhecimento. Porém, na prática, o ambiente acadêmico ainda é marcado por desigualdades, relações de poder e estruturas que dificultam o reconhecimento de muitas mulheres cientistas , especialmente aquelas que conciliam a carreira com responsabilidades familiares e outras demandas da vida pessoal.
Mesmo diante dessas dificuldades, muitas mulheres seguem na ciência. Continuam ensinando, orientando alunos, publicando pesquisas, criando projetos, formando profissionais e contribuindo para o avanço do conhecimento. Em muitos casos, fazem tudo isso ao mesmo tempo em que cuidam da casa, dos filhos e da família.
Por isso, é possível dizer que o sucesso das mulheres na ciência muitas vezes acontece apesar das estruturas acadêmicas, e não graças a elas. Permanecer nesse ambiente exige esforço constante, resistência e capacidade de seguir produzindo mesmo em condições desfavoráveis e em espaços historicamente organizados por regras criadas sem considerar plenamente a realidade feminina.
Embora existam homenagens e campanhas que valorizem as mulheres na ciência, principalmente em datas comemorativas, ainda é necessário discutir de forma mais profunda as experiências reais das cientistas dentro das universidades. Esse debate é importante para que as próprias instituições reconheçam seus limites e criem formas mais justas de valorização e permanência das mulheres na carreira acadêmica.
Um exemplo disso aparece nos espaços de poder das universidades. Muitas vezes, cargos importantes continuam sendo ocupados majoritariamente por homens, que se alternam nessas posições ao longo do tempo. Isso acaba invisibilizando a presença e a capacidade das mulheres, mesmo quando elas possuem competência e experiência para ocupar esses espaços.
Além disso, as mulheres costumam estar mais presentes nos níveis iniciais da carreira acadêmica e assumem grande parte das atividades de ensino e formação de alunos. Ainda assim, frequentemente recebem menos reconhecimento quando se trata da distribuição de recursos, definição de prioridades de pesquisa e ocupação de cargos de liderança.
Diante desse cenário, cresce a necessidade de repensar as regras de funcionamento das universidades e da ciência. A busca por mais igualdade não deve se limitar apenas à inclusão simbólica de mulheres em cargos de decisão, mas precisa garantir condições reais de participação, crescimento e reconhecimento profissional.
Experiências internacionais mostram que a igualdade de gênero na ciência pode fortalecer a qualidade das instituições. A ideia é que ambientes mais diversos produzem pesquisas mais amplas, inovadoras e socialmente relevantes.
Um exemplo é a Universidade de Estocolmo, na Suécia. A instituição reconhece oficialmente a necessidade de criar condições concretas para que mulheres avancem na carreira acadêmica. Isso inclui medidas contínuas para combater desigualdades salariais e garantir igualdade de oportunidades entre homens e mulheres ao longo da trajetória profissional.
Outro caso importante é o da Universidade de Oxford, no Reino Unido. A universidade divulga relatórios anuais sobre desigualdade salarial entre homens e mulheres e reconhece que um dos principais motivos dessa diferença é a baixa presença feminina nos cargos acadêmicos mais altos. A partir dessas análises, Oxford passou a adotar políticas mais transparentes de contratação, promoção e remuneração, além de criar mecanismos permanentes de monitoramento e cobrança institucional.
Esses exemplos mostram que enfrentar desigualdades de gênero exige mudanças estruturais, e não apenas ações simbólicas.
Nesse sentido, iniciativas como prêmios e editais exclusivos para mulheres podem ser importantes para dar visibilidade a trajetórias historicamente ignoradas. No entanto, sozinhas, elas não resolvem os problemas estruturais da ciência.
Isso acontece porque essas iniciativas costumam beneficiar apenas uma parte das mulheres e não mudam as regras gerais de funcionamento das universidades, da carreira acadêmica ou da distribuição de recursos. Assim, o risco é que a responsabilidade pela superação das desigualdades recaia apenas sobre o esforço individual das mulheres, sem que as instituições façam mudanças profundas em suas estruturas.
Por isso, discutir igualdade de gênero na ciência significa também discutir poder, reconhecimento, condições de permanência e justiça institucional. Mais do que homenagens, as mulheres cientistas precisam de ambientes acadêmicos realmente comprometidos com equidade, diversidade e valorização de diferentes trajetórias de vida e de produção científica.