Violências no ambiente de trabalho e entraves para a ascensão profissional são fatores que levam essa população ao desemprego e ao trabalho informal
Escrito por: Diego Facundini
Retirado de: Jornal da USP
O conteúdo apresentado abaixo foi retraduzido para facilitar a leitura e o entendimento.
No mundo do trabalho, pessoas não binárias, ou seja, aquelas que não se identificam apenas como homem ou mulher, enfrentam muitas dificuldades para conseguir e manter um emprego. Além do preconceito no dia a dia, elas encontram obstáculos para crescer profissionalmente e, em muitos casos, acabam excluídas do mercado formal, sendo empurradas para trabalhos informais ou subempregos.
Essa realidade é apresentada em um artigo escrito pelas pesquisadoras Akira Aikyo Galvão, Silvia Casa Nova e Juh Círico, publicado na Revista Catarinense da Ciência Contábil. O estudo mostra que pessoas não binárias têm uma taxa de desemprego três vezes maior do que pessoas cisgêneras, aquelas que se identificam com o gênero designado no nascimento.
A pesquisa faz parte do doutorado de Akira e discute a invisibilidade das pessoas não binárias dentro das organizações. Segundo ela, muitas empresas tentam “normalizar” os corpos e as identidades, forçando todos a se encaixarem em um padrão binário de gênero. Isso aparece em regras de vestimenta, na divisão de cargos, na ausência de banheiros neutros e em diversas formas de violência cotidiana.
“Mesmo com formação e competência, essas pessoas não conseguem acessar esses espaços. O mercado acaba se tornando um ‘não lugar’ para elas”, explica Akira, em entrevista ao Jornal da USP.
Invisibilidade também na pesquisa acadêmica
Essa exclusão não acontece apenas nas empresas, mas também nos estudos acadêmicos. Akira explica que, quando as identidades não binárias não são nomeadas nas pesquisas, elas deixam de existir também nas políticas públicas que poderiam ser criadas a partir desses dados.
Akira é a primeira pessoa trans não binária a ingressar no Programa de Pós-Graduação em Administração da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo. Sua experiência pessoal tem relação direta com o tema da pesquisa.
Ela conta que, após sua transição de gênero, percebeu o afastamento de colegas e profissionais do mercado. “Quando digo que sou uma pessoa não binária, as pessoas se afastam. Isso incomoda e faz a gente questionar por que o gênero define tanto os espaços que podemos ou não ocupar.”
Violências no dia a dia do trabalho
Para pessoas não binárias, o desafio não é apenas conseguir um emprego, mas permanecer nele. Segundo Akira, o ambiente de trabalho pode ser marcado por violências constantes, como piadas, comentários ofensivos e a negação da identidade de gênero.
Enquanto muitas pessoas entram no trabalho preocupadas apenas em cumprir suas tarefas, pessoas não binárias vivem com o medo de sofrer humilhações ou agressões verbais. Esse cenário afeta diretamente a saúde mental e dificulta o crescimento profissional.
Mesmo com bom currículo e experiência, elas raramente são vistas como opção para cargos mais altos. Isso contradiz o discurso comum de que apenas o mérito e a competência determinam promoções.
Exclusão do mercado e perda de direitos
Fora do mercado formal, muitas pessoas não binárias recorrem a trabalhos informais, pequenos empreendimentos ou serviços que exigem menos exposição. Em situações mais extremas, acabam no desemprego ou na prostituição.
Essa exclusão também afeta o acesso a direitos básicos, como a aposentadoria. No Brasil, o sistema previdenciário ainda funciona com critérios binários de gênero. Segundo Akira, o maior problema é que muitas pessoas não binárias sequer conseguem tempo suficiente de trabalho formal para se aposentar.
Ela cita ainda estudos internacionais que mostram que pessoas que não se encaixam no padrão binário de gênero tendem a ter menor expectativa de vida, reflexo da exclusão social e da violência constante.
Pesquisar com, e não apenas sobre
O artigo também propõe mudanças na forma como as pesquisas são feitas. Akira defende que estudos sobre pessoas trans e não binárias devem contar com a participação direta dessas pessoas como pesquisadoras, e não apenas como objetos de pesquisa.
“Muitas vezes somos chamadas apenas para responder questionários. Não somos vistas como produtoras de conhecimento”, afirma. Essa prática, segundo ela, reforça a exclusão e impede avanços reais na compreensão e no enfrentamento das desigualdades.