Pesquisa da USP denuncia falha sistêmica na rede de proteção e a ausência de políticas de reparação para os sobreviventes de crimes que não terminam com a condenação do agressor.
Escrito por: Mariana Gaia estagiária sob orientação de Silvana Salles
Retirado de: Jornal da USP
Uma pesquisa desenvolvida na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP revelou que os impactos do feminicídio vão muito além da perda da vítima, afetando profundamente filhos, mães, irmãos e outros familiares. A dissertação Morre quem está próxima: narrativas de famílias afetadas pelo feminicídio, da pesquisadora Andréia do Nascimento Santos, investigou as consequências emocionais, sociais e econômicas enfrentadas por essas pessoas, frequentemente invisibilizadas pelas políticas públicas.
Utilizando a metodologia da história oral, o estudo reuniu relatos de mulheres que perderam familiares em casos de feminicídio. As narrativas evidenciam que o trauma permanece por muitos anos, envolvendo dificuldades relacionadas à guarda de crianças, impactos na saúde mental, instabilidade financeira e uma constante busca por justiça.
Segundo a pesquisa, o feminicídio não se encerra com a condenação do agressor. Seus efeitos se prolongam na vida dos familiares, que muitas vezes não recebem acompanhamento psicológico, assistência social ou apoio institucional adequado para reconstruírem suas trajetórias.
O trabalho também destaca a situação dos órfãos do feminicídio. Estima-se que milhares de crianças percam suas mães todos os anos em decorrência da violência de gênero, enquanto o Brasil ainda não possui um sistema integrado de dados que permita dimensionar essa realidade e orientar políticas públicas específicas.
Embora iniciativas como pensões especiais e programas de auxílio financeiro representem avanços, a pesquisadora ressalta que essas medidas ainda são insuficientes. O estudo defende que as ações de reparação devem incluir atendimento psicológico contínuo, assistência social e acolhimento para toda a família, reconhecendo que os impactos da violência atingem todos os envolvidos.
Ao preservar as histórias dessas famílias, a pesquisa busca dar visibilidade às chamadas “vítimas invisíveis” do feminicídio e contribuir para a construção de políticas públicas que promovam proteção, acolhimento e justiça para aqueles que permanecem convivendo com as consequências da violência.