Imigração angolana para o Brasil mantém semelhança com exploração iniciada no período colonial

Pesquisa da USP mostra que a imigração é motivada por melhores condições de saúde e educação, mas angolanos ainda sofrem com racismo e precarização do trabalho.

Escrito por: Gabriela César

Retirado de: Jornal da USP

A busca por serviços públicos essenciais de saúde e por acesso à educação é a principal motivação para a chegada de milhares de angolanos ao Brasil. No entanto, ao se estabelecerem no país, esses trabalhadores enfrentam barreiras como o racismo estrutural e a inserção em empregos precários e mal remunerados. A conclusão é de uma tese de doutorado defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que analisa o fluxo migratório de Angola para o Brasil sob a perspectiva da desigualdade histórica e da exploração do trabalho.

Segundo dados do Sistema de Registro Nacional Migratório (SisMigra), 34.038 angolanos entraram no Brasil entre os anos de 2000 e 2024. A pesquisa, de autoria da geógrafa Priscilla Pachi e orientada pelo professor César Ricardo Simoni Santos, investigou as condições de vida e de trabalho desse grupo na cidade de São Paulo, revelando semelhanças entre a precarização atual e dinâmicas de exploração que vêm desde o período colonial.

Qualificação profissional e barreira da discriminação

Para compreender a realidade dos imigrantes, a pesquisadora entrevistou 21 angolanos residentes na capital paulista e cinco empregadores, com apoio e mediação da Casa de Angola — centro cultural dedicado à preservação da memória e cultura do país africano. O estudo constatou que a maioria dos imigrantes acaba absorvida pelo mercado informal, atuando em serviços de limpeza ou na construção civil, mesmo possuindo diploma de ensino superior obtido em Angola.

Embora o domínio da língua portuguesa seja um fator facilitador para a contratação, esse diferencial não se traduz em salários mais altos ou em oportunidades de promoção. As empresas economizam nos custos de capacitação no idioma, mas mantêm os profissionais em cargos iniciais e de baixa remuneração.

Além da limitação financeira, a pesquisa destaca o impacto do preconceito racial. Segundo Priscilla, muitos angolanos relatam que a percepção sobre a discriminação por cor de pele surge apenas após a chegada ao Brasil. A combinação entre baixa remuneração e preconceito dificulta o acesso dessas famílias a moradias adequadas, ao consumo e aos espaços de lazer.

Busca por saúde e educação pública impulsiona migração

A necessidade de buscar oportunidades no exterior está diretamente associada ao histórico de Angola, que enfrentou cerca de 40 anos de conflitos entre a luta pela independência de Portugal e a guerra civil. Esse longo período de instabilidade comprometeu a infraestrutura de serviços básicos no país africano.

Na área educacional, Angola garante ensino público e gratuito apenas até os seis anos do ensino primário. A partir dessa etapa, os custos escolares passam a ser assumidos pelas famílias. No Brasil, o acesso à escola pública gratuita — acompanhado de merenda e material escolar — representa um alívio financeiro significativo para quem chega com filhos. O acesso ao ensino superior brasileiro, com maior variedade de cursos e custos mais acessíveis, também atrai estudantes e profissionais.

No setor da saúde, o sistema público angolano enfrenta carência de médicos especialistas e de medicamentos gratuitos. A pesquisa identificou que o Brasil também se tornou destino para mulheres angolanas em busca de procedimentos de fertilização e tratamentos de alta complexidade que não estão disponíveis em seu país de origem.

Superação da vulnerabilidade

Defendido no Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da FFLCH em março de 2026, o estudo reforça a urgência de políticas públicas voltadas ao acolhimento e à integração plena dos imigrantes no mercado de trabalho formal, garantindo que a mudança de país resulte em efetiva melhoria na qualidade de vida e no respeito aos direitos humanos.

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