Superação e esperança: como a Ginástica para Todos transformou a vida de mulheres com câncer

Muito além da recuperação física, a Ginástica para Todos ressignifica o corpo adoecido e promove acolhimento, bem-estar e qualidade de vida.

Escrito por: Livia Borges – Sob supervisão de Paula Bassi

Retirado de: Jornal da USP

Muito além da recuperação física, a prática de atividades corporais inclusivas pode transformar a forma como pessoas em tratamento oncológico enxergam a si mesmas. Uma pesquisa desenvolvida na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP revela que a Ginástica para Todos (GPT) ajuda mulheres com câncer a reconectarem-se com o próprio corpo, fortalecendo a autoestima, o bem-estar emocional e a sensação de pertencimento por meio da convivência em grupo.

O estudo é fruto da dissertação de mestrado de Shaianny Fontenelle Sá Flores, sob orientação da professora Michele Viviene Carbinatto. A pesquisadora acompanhou de perto a rotina de 12 mulheres com idades entre 34 e 73 anos, integrantes do GYM for DREAM (G4D) — o primeiro grupo de Ginástica para Todos formado por pacientes oncológicas no Brasil, criado em parceria com o Instituto ZENcâncer, uma associação sem fins lucrativos que oferece práticas gratuitas de bem-estar.

O que é a Ginástica para Todos?

Diferente da ginástica tradicional voltada para competições e busca por medalhas, a Ginástica para Todos (GPT) é uma modalidade caracterizada pela ausência de competitividade. Seu foco principal está na inclusão, no prazer de se movimentar e na autoexpressão. A prática reúne pessoas de todas as idades e condições físicas em apresentações que misturam dança, teatro e movimentos gímnicos simples.

Segundo a pesquisa, essa abordagem sem exigências de alto rendimento permite que o corpo — muitas vezes associado apenas à dor, a exames e a intervenções médicas durante o tratamento do câncer — volte a ser vivenciado como fonte de vitalidade, capacidade e alegria.

“É uma realização, é uma alegria, porque você pode fazer do jeito que dá e ainda assim se sentir uma ginasta, uma bailarina. Você vestir aquele figurino e perceber que pode dar muito de si para fazer uma coisa bonita é incrível”, relatou uma das participantes ouvidas na pesquisa.

Superação e acolhimento coletivo

A coleta de dados da pesquisa ocorreu por meio de entrevistas em duas etapas: antes e depois da participação do grupo no Festival GYM Brasil de Ginástica para Todos, realizado em Aracaju, Sergipe. Para as integrantes, viajar e se apresentar em um festival nacional representou um marco de superação e a oportunidade de romper estigmas associados à doença e à idade.

Os relatos demonstraram que a convivência em grupo gerou uma sólida rede de apoio mútuo. A união no projeto ajudou as participantes a superarem o isolamento, a reconstruírem a confiança abalada pelo diagnóstico e a fazerem planos para o futuro com renovado entusiasmo.

“Nós somos o primeiro grupo de pacientes oncológicos na Ginástica para Todos do Brasil! Estamos aí nos apresentando, levando essa mensagem para o mundo — não só para as pessoas doentes, mas para o mundo”, destacou outra integrante do projeto.

Alinhamento com diretrizes de saúde pública

Os achados da pesquisa reforçam a importância das Práticas Corporais e Atividades Físicas (PCAF), abordagens recomendadas pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) e integradas às políticas públicas do Sistema Único de Saúde (SUS). Essas ações buscam promover o autocuidado, a prevenção de complicações e a dignidade humana durante e após o tratamento de doenças graves.

O estudo da EEFE-USP conclui que a saúde não deve ser compreendida apenas como a ausência de enfermidades, mas como um estado amplo de bem-estar físico, mental e social. Ao incentivar propostas sensíveis e acolhedoras na Educação Física, torna-se possível oferecer a pacientes com câncer ferramentas para ressignificarem suas trajetórias com autonomia, afeto e esperança.

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