Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da USP evidencia a contribuição feminina para o avanço do Arquigrafia em várias áreas do conhecimento
Escrito por: Ana Beatriz Tuma
Retirado de: Jornal da USP
O conteúdo apresentado abaixo foi retraduzido para facilitar a leitura e o entendimento.
As mulheres vêm conquistando um papel cada vez mais importante na produção científica brasileira. Dados da pesquisa Brasil: Mestres e Doutores 2024, realizada pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), mostram que elas já são maioria entre os titulados em cursos de mestrado e doutorado no país. Em 2021, as mulheres representaram 56,8% dos mestres e 55,6% dos doutores formados, uma mudança significativa em comparação com 1996, quando os homens eram maioria nesses cursos.
Essa crescente participação feminina também pode ser observada em projetos de pesquisa desenvolvidos dentro das universidades. Um exemplo é o Arquigrafia, plataforma colaborativa criada em 2008 para compartilhar imagens de edifícios e espaços urbanos dos países de língua portuguesa. Atualmente, o projeto faz parte da iniciativa Experiência Arquigrafia 4.0, apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP.
Segundo o coordenador do projeto, Artur Rozestraten, a presença feminina sempre foi marcante nas equipes multidisciplinares do Arquigrafia. Hoje, as pesquisadoras têm participação fundamental no desenvolvimento da nova versão da plataforma, prevista para ser lançada ainda em 2026. Elas atuam principalmente em duas áreas: no desenvolvimento do software e nos trabalhos relacionados à biblioteconomia e à ciência da informação.
Mulheres ajudando a construir a nova plataforma
Para a professora Kalinka Branco, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP e pesquisadora principal do projeto, a presença feminina enriquece o trabalho porque amplia a diversidade de perspectivas.
Segundo ela, diferentes experiências de vida levam a diferentes formas de enxergar e resolver problemas. Essa diversidade contribui para criar soluções mais completas e inovadoras para a plataforma.
Uma das profissionais que participou desse processo foi Ana Ritschel Ribeiro, que atuou como designer do projeto entre 2023 e 2025. Seu trabalho foi voltado para a criação da identidade visual e da experiência dos usuários dentro da plataforma.
Mesmo após o fim de sua bolsa de pesquisa, Ana continua acompanhando o projeto. Atualmente, ela desenvolve uma tese de doutorado sobre plataformas digitais independentes, como o Arquigrafia, que não dependem de grandes empresas ou investidores para existir.
Hoje, quem dá continuidade a parte desse trabalho é Gabriela Momberg, mestranda em Design na FAU. Ela é responsável por planejar a organização das páginas, definir componentes como menus e filtros e acompanhar a implementação dessas ideias pela equipe de programação.
Além disso, Gabriela também pesquisa novas formas de apresentar imagens e informações aos usuários, pensando em futuras atualizações da plataforma.
Organização das informações e preservação da memória
Outra área importante do Arquigrafia é a de biblioteconomia e ciência da informação. A professora Vânia Lima, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, explica que sua equipe trabalha para organizar e padronizar as informações presentes nas fotografias do acervo.
Nos últimos anos, houve um aumento significativo da participação feminina nesse grupo.
Entre as pesquisadoras está Camila Silva, que atualmente trabalha na catalogação de nomes geográficos e edifícios retratados nas imagens da plataforma. O objetivo é tornar as descrições mais precisas e facilitar a busca por informações.
Durante esse processo, a equipe percebeu, por exemplo, que muitos prédios mudaram de função ao longo do tempo. Algumas antigas agências bancárias, por exemplo, hoje funcionam como centros culturais, mostrando como os espaços urbanos se transformam com os anos.
Desafios para a igualdade de gênero
Apesar dos avanços, as pesquisadoras reconhecem que ainda existem desafios para alcançar uma maior igualdade entre homens e mulheres, especialmente nas áreas ligadas à tecnologia.
Camila Silva observa que há uma divisão histórica entre os cursos. Enquanto áreas como Biblioteconomia costumam atrair mais mulheres, cursos de Computação ainda têm predominância masculina.
Mesmo assim, ela acredita que o Arquigrafia oferece um ambiente acolhedor e aberto à participação feminina.
Gabriela Momberg compartilha dessa percepção. Segundo ela, suas ideias são ouvidas e valorizadas dentro da equipe, algo que infelizmente ainda não acontece em muitos ambientes profissionais.
Ela destaca também o respeito e a sensibilidade dos colegas, características que considera fundamentais para incentivar mais mulheres a ingressarem e permanecerem nas áreas tecnológicas.
A estudante Karina Leal, bolsista de iniciação científica, também relata experiências positivas no projeto. Ela pesquisa arquiteturas e espaços ligados à população negra brasileira por meio de fotografias. Durante um intercâmbio na França, percebeu a pouca presença feminina em sua área de estudo, mas encontrou apoio e inspiração em outras pesquisadoras com quem conviveu.
Para Ana Ritschel Ribeiro, embora o Arquigrafia busque ampliar a diversidade e incluir mais mulheres em suas atividades, ainda existem barreiras estruturais tanto na academia quanto no setor de tecnologia.
Segundo ela, esses espaços continuam sendo dominados principalmente por homens brancos, o que torna as mudanças mais lentas. Ainda assim, acredita que iniciativas como o Arquigrafia são importantes para promover transformações e abrir novas oportunidades para diferentes grupos.
Um projeto mais diverso e colaborativo
A experiência do Arquigrafia mostra como a participação feminina tem sido essencial para a produção científica e tecnológica no Brasil. Mais do que ocupar espaços, essas pesquisadoras ajudam a construir soluções inovadoras, colaborativas e inclusivas, contribuindo para que a ciência e a tecnologia representem cada vez mais a diversidade da sociedade brasileira.