Série de reportagens mostra como a inteligência artificial pode revitalizar línguas indígenas no Brasil

Entre soberania digital e riscos de distorção, o caso do Nheengatu expõe desafios éticos e tecnológicos na preservação de culturas originárias

Escrito por: Magaly Prado

Retirado de: Jornal da USP

O conteúdo apresentado abaixo foi retraduzido para facilitar a leitura e o entendimento. A imagem foi retira do Jornal da USP, criado por Daniela Gonçalves.

O Projeto Nheengatu Digital é uma iniciativa que reúne pesquisadores da USP, da IBM Research e comunidades indígenas com o objetivo de preservar e fortalecer línguas indígenas por meio da inteligência artificial (IA). A proposta busca criar ferramentas tecnológicas que ajudem a manter vivas essas línguas e culturas, ao mesmo tempo em que respeitam a autonomia e os conhecimentos dos povos originários.

Segundo o professor Claudio Pinhanez, coordenador do projeto e vice-diretor do Centro de Inteligência Artificial (C4AI) da USP, desenvolver sistemas de IA para línguas indígenas é um desafio técnico e cultural. Isso porque idiomas como o Nheengatu possuem estruturas gramaticais complexas e contam com pouca quantidade de material digital disponível para treinar os sistemas de inteligência artificial.

Além disso, existe a preocupação de evitar que essas tecnologias reproduzam preconceitos, estereótipos ou visões distorcidas sobre os povos indígenas. Por esse motivo, as próprias comunidades participam diretamente da criação e da avaliação das ferramentas desenvolvidas.

Outro desafio é garantir que as traduções feitas pela inteligência artificial sejam realmente confiáveis. Como há poucos textos disponíveis nessas línguas, os métodos tradicionais de avaliação nem sempre funcionam. Por isso, o projeto valoriza a análise feita por falantes e especialistas das próprias comunidades, complementando os testes técnicos realizados pelos pesquisadores.

Um problema conhecido da inteligência artificial são as chamadas “alucinações”, quando o sistema cria informações que parecem corretas, mas que, na verdade, estão erradas. Para reduzir esse risco, o projeto busca desenvolver modelos mais seguros e adequados à realidade cultural dos povos indígenas.

Proteção dos dados e soberania digital

Um dos pilares da iniciativa é garantir que os dados linguísticos permaneçam sob controle das comunidades. O projeto trabalha com ferramentas de código aberto, permitindo que diferentes povos possam desenvolver suas próprias soluções tecnológicas sem depender totalmente de grandes empresas ou plataformas externas.

Nesse modelo, o software pode ser compartilhado livremente, mas os dados pertencem às comunidades indígenas e permanecem protegidos. Segundo Pinhanez, esse cuidado é fundamental para preservar não apenas a língua, mas também os conhecimentos e valores culturais associados a ela.

A proposta está ligada ao conceito de soberania digital: a capacidade de uma comunidade produzir, administrar e controlar suas próprias tecnologias e informações. O objetivo é que os povos indígenas sejam protagonistas da construção de seus espaços digitais.

Mais do que tecnologia

Para os pesquisadores, trabalhar com línguas indígenas também significa valorizar a diversidade cultural brasileira. Muitas palavras usadas diariamente no português têm origem em idiomas indígenas, mas essas línguas ainda recebem pouca atenção em projetos tecnológicos.

Como há poucos registros escritos disponíveis, a estratégia inicial do projeto é criar ferramentas úteis para as comunidades, estimulando o uso da escrita e ampliando gradualmente a produção de conteúdos digitais nesses idiomas.

Pinhanez também defende que o Brasil invista mais no desenvolvimento de inteligência artificial própria. Segundo ele, sistemas criados em outros países nem sempre compreendem adequadamente aspectos culturais brasileiros, o que pode gerar erros e interpretações equivocadas.

Próximos passos

A partir de 2026, o Projeto Nheengatu Digital pretende expandir suas atividades para novas etnias, incluindo comunidades da região do Alto Rio Negro, no Amazonas. A expectativa é que outras populações indígenas possam utilizar as ferramentas desenvolvidas para fortalecer suas línguas e produzir suas próprias soluções tecnológicas.

Apesar dos desafios, como custos de deslocamento, necessidade de infraestrutura e autorizações para atuação em terras indígenas, os pesquisadores acreditam que a iniciativa pode contribuir para a preservação linguística e cultural no ambiente digital.

Mais do que criar tradutores automáticos, o projeto busca construir um espaço em que as comunidades indígenas possam utilizar a tecnologia para preservar sua identidade, compartilhar conhecimentos e participar ativamente do futuro digital do País.

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