Pesquisa analisa as trajetórias de imigrantes haitianos em São Paulo

Escrito por: Talita de Paula Souza

Retirado de: Jornal da USP

Desde a década de 2010, o Brasil passou a receber um grande número de imigrantes haitianos em busca de melhores condições de vida. Uma pesquisa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP identificou dois principais caminhos seguidos por esses imigrantes na cidade de São Paulo: muitos acabam se estabelecendo em bairros da periferia, enquanto outros veem a capital paulista como uma etapa antes de seguir para países como Estados Unidos e Canadá.

A pesquisadora Thauany Vernacci Brewer Pereira Freire explica que muitos haitianos deixam seu país em busca do chache lavi, expressão em crioulo haitiano que significa “buscar uma vida melhor”. Para parte deles, morar em São Paulo faz parte desse projeto, mas o objetivo final é conseguir chegar a países do Norte Global, onde esperam encontrar melhores salários e oportunidades para ajudar suas famílias que permaneceram no Haiti.

Ao chegar à capital paulista, muitos imigrantes encontram dificuldades que acabam influenciando seus planos. Entre os principais desafios estão a dificuldade de conseguir empregos estáveis, o racismo, as condições precárias de trabalho e o alto custo da moradia.

Segundo a pesquisadora, esses fatores fazem com que muitos haitianos não consigam viver nas regiões com melhor infraestrutura da cidade. Com o tempo, acabam se mudando para áreas mais afastadas, onde os aluguéis são mais baratos, mas que frequentemente apresentam menos serviços públicos e infraestrutura.

A pesquisa mostra que esse processo levou à concentração de famílias haitianas em bairros da zona leste de São Paulo. Regiões como Guaianases passaram a reunir uma comunidade expressiva de imigrantes, principalmente porque oferecem moradias mais acessíveis e contam com redes de apoio já formadas por outros haitianos.

Além da presença de familiares e conterrâneos, as igrejas têm um papel importante na acolhida dos recém-chegados. Muitas delas ajudam os imigrantes com alimentação, orientação sobre documentos, procura por moradia, acesso aos serviços públicos e informações sobre oportunidades de trabalho.

Esses espaços também contribuem para manter viva a cultura haitiana. É nas igrejas e nas redes comunitárias que muitos imigrantes preservam o uso da língua crioula, os cânticos religiosos e outras tradições, além de compartilharem experiências e apoiarem uns aos outros.

Segundo a pesquisa, essas redes de solidariedade são fundamentais para que muitos haitianos consigam reconstruir suas vidas em São Paulo, fortalecendo o sentimento de pertencimento e criando condições para permanecer na cidade, apesar das dificuldades enfrentadas.

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