Pressões sociais causam grande impacto à saúde mental de meninas adolescentes

Dados da PeNSE 2024 mostram índices maiores de sofrimento emocional entre meninas e levantam questões sobre gênero, imagem corporal e redes sociais.

Escrito por: Mel Rodrigues – Sob supervisão de Gabriel Soares

Retirado de: Jornal da USP

A saúde mental das meninas adolescentes no Brasil exige atenção urgente. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), divulgados pelo IBGE, revelam que uma em cada quatro meninas (25%) sente que a vida não vale a pena ser vivida — um número duas vezes maior do que o registrado entre os meninos (12%). A vontade de se machucar de propósito também é mais do que o dobro entre elas, atingindo 43,4% das entrevistadas, contra 20,5% dos garotos. Além disso, 58,1% das adolescentes relataram sentir irritação, nervosismo ou mau humor de forma frequente, enquanto entre os meninos esse índice é de 27,6%.

A disparidade nesses dados expõe como as cobranças sociais, os padrões de beleza impostos pelas redes sociais e a forma como meninos e meninas são educados desde a infância influenciam diretamente o bem-estar emocional na juventude.

Para o professor Sérgio Kodato, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, um dos caminhos para entender essa diferença está na forma como a sociedade ensina cada gênero a lidar com emoções difíceis, como raiva e frustração. Enquanto os garotos recebem mais autorização social para expressar a agressividade para fora, as meninas são incentivadas a ser delicadas, calmas, cuidadoras e a evitar conflitos.

“Quando não se encontra uma via de expressão adequada no mundo externo, a agressividade pode voltar-se contra o próprio sujeito, aparecendo como culpa, autodepreciação, autolesão ou pensamentos de morte”, explica o especialista da USP.

Padrões de beleza e o impacto das redes sociais

Além da repressão de sentimentos, as adolescentes enfrentam uma sobrecarga de expectativas. Espera-se que sejam independentes e bem-sucedidas, mas elas continuam sendo cobradas pela aparência, pelo comportamento e pela capacidade de agradar aos outros.

Essa pressão é amplificada pela busca por um ideal de beleza inatingível, focado na magreza e no corpo perfeito. O distanciamento desse padrão faz com que o próprio corpo passe a ser visto com vergonha, expondo as jovens ao risco de bullying e exclusão.

As redes sociais tornam esse cenário ainda mais delicado. Ao acompanhar vidas editadas, fotos produzidas e rotinas aparentemente perfeitas de outras pessoas, as adolescentes tendem a comparar a própria realidade com o que veem nas telas. Essa comparação constante gera sentimentos de inferioridade, autocobrança e frustração durante uma fase em que a própria identidade ainda está em formação.

O papel fundamental da família e da escola

Diante desse quadro, tanto o ambiente escolar quanto a convivência familiar desempenham papeis decisivos no acolhimento dessas jovens. Na escola, professores e funcionários devem ficar atentos a sinais como isolamento, queda repentina no rendimento escolar, ansiedade e perda de interesse por atividades do dia a dia. A função da escola não é fazer o tratamento de saúde, mas identificar o sofrimento e encaminhar a estudante para o atendimento adequado.

“O mais importante é não banalizar essas manifestações como drama de adolescente, indisciplina ou falta de interesse, mas prestar muita atenção para casos de isolamento, apatia ou mesmo sofrimento atroz”, ressalta Kodato.

Dentro de casa, a orientação do especialista é substituir a repressão e os julgamentos pela escuta atenta. Antes de dar conselhos ou soluções prontas, os pais e responsáveis precisam demonstrar abertura para ouvir o que a jovem está sentindo. Criar espaços seguros para que as meninas expressem suas fragilidades, sem o medo de serem criticadas, é um passo essencial para fortalecer sua autonomia e proteger sua saúde mental.

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