Representação das mulheres na mídia ainda permanece estagnada, mostra estudo

Apesar de integrarem metade da população mundial, o relatório identifica que as mulheres têm 26% de representação na mídia. É o que mostra estudo conduzido pelo Projeto de Monitoramento Global da Mídia

Escrito por: Ana Vitória Barbosa, do LAC – Laboratório Agência de Comunicação

Retirado de: Jornal da USP

O conteúdo apresentado abaixo foi retraduzido para facilitar a leitura e o entendimento.

Mesmo representando cerca de metade da população mundial, as mulheres continuam aparecendo pouco nas notícias. Um estudo do Projeto de Monitoramento Global da Mídia (GMMP), divulgado recentemente, mostrou que elas ocupam apenas 26% do espaço nas reportagens ao redor do mundo. O levantamento é realizado a cada cinco anos desde 1995 e conta com a participação de mais de 100 países, incluindo o Brasil.

No País, a pesquisa foi coordenada pela jornalista e pesquisadora Elizângela Carvalho Noronha e pela professora Cláudia Lago, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. O trabalho também contou com a participação da professora Dayana Melo e de estudantes de pós-graduação da universidade.

Os resultados mostram que pouca coisa mudou nos últimos anos. A presença feminina nas notícias continua praticamente estagnada, tanto no Brasil quanto em outros países. Além disso, as matérias que realmente questionam estereótipos de gênero ainda são minoria, representando apenas entre 3% e 4% do conteúdo analisado.

Segundo a professora Cláudia Lago, os dados revelam uma invisibilidade das mulheres na mídia. Por isso, o próprio estudo adota o slogan “metade do mundo, um quarto das notícias”, destacando a diferença entre a participação das mulheres na sociedade e sua representação nos meios de comunicação.

A pesquisa analisou não apenas quem aparece nas reportagens, mas também quem produz as notícias e quais papéis são atribuídos às pessoas retratadas. Entre os jornalistas, as mulheres têm maior presença nos veículos digitais, enquanto na televisão sua participação é menor. Já quando se observa quem é ouvido como fonte de informação, a presença feminina continua reduzida.

Um dos dados que mais chamam atenção é que, mesmo quando as reportagens são feitas por mulheres, os entrevistados continuam sendo majoritariamente homens. Isso mostra que o padrão de buscar especialistas e autoridades masculinas ainda permanece forte nas redações.

A desigualdade aparece também nos temas abordados. Assuntos que costumam ter mais destaque no noticiário diário, como política, economia, esportes e segurança pública, continuam dominados por vozes masculinas. No jornalismo esportivo, por exemplo, os homens aparecem na grande maioria das matérias analisadas.

Outra diferença importante está na forma como homens e mulheres são retratados. Enquanto os homens costumam ser entrevistados como especialistas ou autoridades, as mulheres aparecem com mais frequência para contar experiências pessoais. Em uma reportagem sobre aborto, por exemplo, é comum que mulheres sejam chamadas para relatar suas vivências, enquanto homens ocupam o papel de especialistas que comentam o tema.

O estudo também identificou que muitas mulheres continuam sendo apresentadas a partir de seu contexto familiar, como mães, esposas ou donas de casa. Esse tipo de abordagem reforça estereótipos tradicionais e limita a forma como elas são vistas pelo público. Além disso, a presença de mulheres negras, indígenas e de outros grupos racializados ainda é muito pequena nas notícias.

Quando as mulheres ganham destaque nas reportagens, isso acontece principalmente em situações de violência. Casos de feminicídio, agressões e outras formas de violência de gênero são os temas em que elas aparecem com mais frequência. Ainda assim, a pesquisa aponta que a cobertura desses assuntos continua baixa quando comparada à gravidade do problema e ao crescimento dos casos registrados no Brasil.

Outro ponto levantado pelo relatório é a falta de aprofundamento nas discussões sobre igualdade de gênero. Temas como direitos das mulheres, equidade, legislação e políticas públicas aparecem em uma parcela muito pequena das matérias analisadas.

Para Cláudia Lago, mudar esse cenário exige muito mais do que aumentar o número de mulheres nas reportagens. É necessário repensar a escolha das fontes, os temas abordados e a maneira como as mulheres são retratadas. Segundo ela, combater estereótipos e ampliar a diversidade nas notícias são passos importantes para construir uma comunicação mais representativa e próxima da realidade da sociedade.

A edição brasileira do estudo contou com a participação de 23 estados e do Distrito Federal, analisando jornais, rádios, emissoras de televisão e veículos digitais. Além da representação feminina, o levantamento também observou a presença de pessoas negras, LGBTQIAPN+ e mulheres em situação de vulnerabilidade econômica.

Os resultados mostram que, apesar dos avanços conquistados nas últimas décadas, ainda existe um longo caminho para que mulheres e outros grupos historicamente excluídos tenham espaço, voz e visibilidade de forma mais equilibrada na mídia brasileira.

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