Sistema de justiça ainda revitimiza mulheres vítimas de violência sexual, aponta estudo da USP

Pesquisa da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da USP mostra que normas existentes funcionam de forma desigual e defende o uso da escuta protegida para evitar que vítimas sofram violência institucional nos tribunais.

Escrito por:  Luis Ribeiro* –  Luis Ribeiro, jornalista da FDRP*

Retirado de: Jornal da USP

Mesmo com a existência de normas de proteção, o sistema de justiça brasileiro ainda falha em acolher adequadamente e não evita a revitimização de mulheres vítimas de violência sexual. A constatação é de uma pesquisa realizada na Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP) da USP, que analisou o atendimento judicial e defendeu a ampliação do depoimento especial — uma forma de escuta protegida — também para mulheres adultas.

A revitimização ocorre quando a pessoa que sofreu a violência é exposta a situações adicionais de sofrimento no próprio ambiente de atendimento ou julgamento. Isso acontece, por exemplo, ao precisar repetir o relato do crime várias vezes sem necessidade, ao responder a perguntas inadequadas ou ao ter sua vida e seu comportamento julgados durante o processo.

Desenvolvida pela pesquisadora Isadora Andréa Santos no Programa de Pós-Graduação da FDRP, com orientação do professor Fredson Sado Oliveira Carneiro, a pesquisa investigou como os instrumentos legais funcionam na prática. Para isso, o estudo ouviu sete juízes, cinco promotores de Justiça e cinco profissionais do setor psicossocial, como psicólogos e assistentes sociais.

O que é o depoimento especial e por que ele importa

Atualmente, a lei garante o depoimento especial apenas para crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência. Esse modelo de escuta é feito por um profissional capacitado, em uma sala reservada, intermediando as perguntas feitas por juízes, promotores e advogados para diminuir o desgaste emocional da vítima.

Para jovens de 18 a 21 anos, a aplicação é opcional, e a maioria prefere falar diretamente com o juiz. No entanto, a pesquisa identificou que já existem juízes e promotores no Estado de São Paulo aplicando o depoimento especial para mulheres com mais de 21 anos, como forma de reduzir o trauma do processo.

Apesar da existência de mecanismos como os Protocolos para Julgamento com Perspectiva de Gênero e Racial e leis que proíbem ofensas à dignidade das vítimas em audiências, o estudo aponta que o uso dessas ferramentas depende do entendimento de cada juiz. Com isso, o acolhimento varia de um fórum para outro.

“Há avanços importantes, mas eles funcionam parcialmente. Conseguem produzir experiências mais protetivas em determinadas situações, mas ainda não foram capazes de transformar a lógica do sistema que pode produzir a revitimização”, explica Isadora.

Necessidade de formação continuada

O estudo destaca que a criação de novos procedimentos não garante, por si só, uma mudança de comportamento no Judiciário. A pesquisadora defende que é indispensável capacitar continuamente juízes, promotores e demais servidores sobre as desigualdades sociais, de gênero e de raça, já que as principais vítimas de crimes sexuais no país são mulheres negras.

O professor Fredson Carneiro acrescenta que a formação continuada ajuda a quebrar padrões antigos e ultrapassados do Judiciário. “A aplicação das leis tende a reproduzir visões de mundo conservadoras quando não há um esforço reflexivo constante. A formação continuada atua como um instrumento essencial para permitir que os agentes públicos desenvolvam uma atuação crítica, humanizada e técnica frente às demandas por direitos”, afirma o orientador.

Autonomia e acolhimento sem pressão

Ao propor a ampliação do depoimento especial para mulheres adultas, o estudo reforça que a decisão final deve ser sempre da vítima. O procedimento protegido precisa ser oferecido como uma opção de acolhimento, e não como uma imposição do Estado.

Dessa forma, caso a mulher prefira prestar seu depoimento de forma direta na audiência, sua vontade deve ser respeitada. O objetivo principal, segundo os pesquisadores, é garantir um ambiente em que as vítimas se sintam seguras, ouvidas e respeitadas durante todo o processo judicial.

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