Oficinas aproximam alunos da USP dos sabores e saberes da culinária moçambicana

Retirado de: Jornal da USP

Escrito por: Vitória Gomes* – Estagiária sob supervisão de Rose Talamone

Folhas de mandioca, abóbora, batata-doce, feijão-de-corda e amaranto costumam ser descartadas no campo brasileiro. No entanto, em Moçambique, essas mesmas folhas são a base de refeições nutritivas e tradicionais. Para unir cultura, sustentabilidade e ciência, estudantes da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP participaram de oficinas práticas que ensinam a preparar pratos típicos do país africano.

A atividade faz parte da pesquisa de doutorado da nutricionista moçambicana Verona Salésia Matsinhe, no Programa de Pós-Graduação em Nutrição e Metabolismo. O estudo é orientado pelo professor Alceu Afonso Jordão Júnior e analisa como diferentes modos de cozimento alteram a quantidade de nutrientes e de substâncias protetoras das células contra o envelhecimento e doenças.

Alimentos pouco conhecidos no Brasil viram pratos saborosos

No Brasil, essas folhas são classificadas como Plantas Alimentícias Não Convencionais (Pancs) — vegetais comestíveis que a maioria das pessoas não está acostumada a consumir. Nas oficinas, os alunos do curso de Nutrição aprenderam a preparar pratos regionais como a matapa (um caldo cremoso feito com folhas de mandioca, amendoim e coco) e o madledlele (preparado com folhas de batata-doce).

Durante o preparo, os estudantes avaliaram o sabor e a aceitação das receitas para entender como esses ingredientes podem ser inseridos no cardápio brasileiro. Segundo os pesquisadores, a mandioca e a abóbora são cultivadas em grande quantidade no país, mas suas folhas quase nunca chegam às feiras e mercados.

“A pesquisa permite compreender o que compõe essas plantas, o que elas agregam à saúde e de que forma podem ser preparadas. Também nos ajuda a reconhecer a riqueza da cultura alimentar moçambicana”, explica a pesquisadora Verona Salésia Matsinhe.

Métodos de preparo e combate ao desperdício

Nas aulas práticas dentro do Laboratório de Técnica e Dietética da FMRP, os alunos aplicaram diferentes métodos de cozimento. O objetivo da pesquisa é comparar as amostras antes e depois de irem ao fogo para identificar qual técnica preserva melhor as vitaminas e os compostos naturais das plantas.

Para o professor Alceu Jordão Júnior, trazer a experiência internacional enriquece a formação dos futuros profissionais ao unir rigor científico, alimentação saudável e respeito às diferentes culturas. A iniciativa conta ainda com o apoio da professora Laís Mariano Zanin e da estudante de graduação Ieda Dias Figueiredo dos Reis, bolsista do Programa Unificado de Bolsas da USP.

Ao final do estudo, a equipe planeja produzir manuais explicativos simples sobre o uso culinário e o valor nutricional dessas folhas. A meta é incentivar o combate ao desperdício no campo e nas cidades, mostrando que partes de vegetais normalmente descartadas podem virar refeições saudáveis e nutritivas.

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